O Trabalho Que a Mente Julga Inacabado - William Contraponto

 


O Trabalho Que a Mente Julga Inacabado

Meu corpo dá sinais de cansaço, de que deseja um descanso maior. Meus sentimentos também desejam repousar na lembrança daquilo que viveram, pois a vivência foi plena, completa.

O que impede, por algum motivo, esse descanso permanente é a mente. Ela atua como um freio diante do cansaço. Deseja registrar o que pensa e aquilo que esta existência lhe permitiu absorver. Há uma necessidade de colocar em palavras o que foi vivido, como se o registro pudesse dar forma definitiva àquilo que já encontrou sua completude na experiência.

Não há, nesse sentido, o desejo de viver outras experiências naquilo que considero completo. É assim que compreendo minha vida conjugal, na qual tive a oportunidade de experimentar o companheirismo em suas diversas dimensões, até mesmo em suas nuances menos cômodas. Houve uma vida compartilhada, com suas contradições, dificuldades, reconciliações e formas de amor. Não falo de uma experiência idealizada, mas de uma experiência vivida por inteiro.

Lembro-me de uma pessoa que me disse: “Não te imagino mais sem o Maurício, nem o Maurício sem ti.” Essa frase permanece em mim não apenas pela maneira como nos enxergava, mas porque traduzia algo que construímos ao longo da nossa história.

São essas memórias, entre tantas outras, que me fazem continuar para além do que meu corpo deseja. Não porque a dor tenha desaparecido, nem porque eu precise encontrar imediatamente um novo sentido para a vida. Continuo porque há algo que minha mente ainda precisa elaborar, registrar e transformar em palavra.

Talvez meu corpo peça descanso porque atravessou muito. E talvez minha mente continue trabalhando porque sabe que uma história como a nossa não termina no instante em que a convivência se interrompe. Ela permanece naquilo que vivi, naquilo que aprendi e naquilo que ainda preciso escrever.