O Deus que Cabe no Patriarcado - William Contraponto


O Deus que Cabe no Patriarcado

William Contraponto 


Há quem levante a Bíblia com uma mão e, com a outra, sustente as velhas estruturas de dominação. Chamam isso de fé. Eu chamo de conveniência.


Se Deus é amor, por que tantos transformaram esse amor em instrumento de controle? Se a compaixão fosse realmente o centro de suas crenças, não haveria tanto entusiasmo em decidir quem pode amar, quem pode falar, quem deve obedecer e quem merece ser silenciado.


Curioso é perceber que muitos dos que afirmam viver para o céu fazem de tudo para preservar os privilégios da terra. Não defendem apenas uma religião. Defendem uma hierarquia. Um mundo onde o homem manda, a mulher aceita, a diversidade se esconde e a autoridade jamais é questionada. Deus torna-se argumento; o patriarcado, verdadeiro altar.


Não é coincidência. Durante séculos, crenças foram usadas para justificar poderes humanos. Reis governaram em nome do divino. Pais governaram suas casas como pequenos soberanos. Líderes religiosos transformaram interpretações em decretos morais. A transcendência serviu, muitas vezes, para proteger interesses profundamente terrenos.


Como ateu, não vejo nisso uma prova da existência de qualquer divindade. Vejo apenas a extraordinária capacidade humana de criar discursos capazes de legitimar aquilo que já desejava conservar.


A fé pode inspirar gestos de solidariedade, e seria injusto negar isso. Mas também pode servir de escudo para a intolerância quando deixa de ser um caminho pessoal e passa a exigir submissão coletiva. O problema não está na espiritualidade em si, mas na facilidade com que ela é capturada por estruturas de poder.


Talvez a maior blasfêmia não seja deixar de acreditar em Deus. Talvez seja usar Deus para justificar preconceitos, desigualdades e privilégios históricos, enquanto se proclama humildade diante do sagrado.


A ética não precisa de recompensa eterna para existir. O respeito não depende de mandamentos gravados em pedra. A dignidade humana não deveria precisar da autorização de um livro, de um púlpito ou de uma tradição.


Enquanto houver quem confunda autoridade com virtude e dominação com ordem, continuaremos assistindo ao espetáculo de uma religiosidade que fala de amor, mas pratica exclusão; que prega igualdade diante do divino, mas aceita desigualdade entre os vivos.


No fim, talvez a pergunta mais desconfortável não seja se Deus existe.


Talvez seja por que tantos insistem em criar um deus que se parece tanto com aqueles que sempre ocuparam o topo da mesa.