Os Mundos Esquecidos
William Contraponto
Talvez já fomos mais do que lembrança,
E o tempo ocultou nossa passagem;
Restou da antiga e vasta confiança
Somente o mito, herança da viagem.
Se o fogo um dia consumiu cidades,
E o mar levou palácios para o chão,
Restou só a poeira dessas verdades
Acumuladas na discreta tradição.
Quem sabe um templo fosse uma oficina,
Ou um saber tornado devoção;
A história, quando o esquecimento inclina,
Reveste a perda com imaginação.
Não digo que essa hipótese é verdade,
Nem quero tratá-la como religião;
A dúvida preserva a liberdade
De investigar sem qualquer imposição.
Talvez também sejamos só passagem,
Um breve instante à beira da erosão;
O orgulho não resiste à ventania,
Nem vence para sempre a destruição.
Se um novo amanhecer surgir depois,
De outro enredo feito de poeira,
Que reste a velha pergunta entre nós:
Quantos mundos perdeu a humanidade inteira?



