A Moral dos que Podem - William Contraponto

 A MORAL DOS QUE  PODEM

William Contraponto 


No Brasil, existe uma parcela da direita, especialmente de sua vertente mais extremada, que construiu uma curiosa relação com a moral. Defende princípios em voz alta, mas frequentemente os abandona quando eles começam a contrariar seus próprios interesses. Condena determinados comportamentos quando praticados pelos outros e, ao mesmo tempo, encontra justificativas para praticá-los quando são seus aliados, seus representantes ou seus próprios interesses ⁷que estão em jogo. Não se trata apenas de incoerência ocasional. É uma maneira de enxergar o mundo.


Nessa lógica, a lei não deveria valer da mesma forma para todos. Ela serve para controlar aqueles que não possuem influência, dinheiro ou poder. Para os demais, sempre aparece uma justificativa, uma brecha, uma narrativa conveniente ou alguém disposto a transformar o errado em aceitável. O que seria escândalo nas mãos de um pobre pode receber outro nome quando envolve alguém poderoso. O que seria corrupção pode virar negócio. O que seria privilégio pode ser apresentado como mérito. E aquilo que seria crime para uns passa a ser tratado como simples excesso para outros.


É justamente aí que a hipocrisia deixa de ser apenas uma característica individual e passa a revelar uma visão de sociedade. Uma sociedade na qual direitos, deveres e consequências não seriam universais, mas proporcionais à posição que cada pessoa ocupa. Quem tem dinheiro pode comprar bons advogados, influência, tempo e silêncio. Quem tem poder pode transformar sua versão dos fatos em verdade conveniente. Quem não tem nada disso recebe a dureza completa das instituições. A mesma regra, aplicada a pessoas diferentes, produz resultados diferentes quando o poder interfere no caminho.


O mais curioso é que essa gente costuma se apresentar como guardiã dos bons costumes. Fala em família, honestidade, ordem, tradição, responsabilidade e respeito à lei. Mas princípios que só existem enquanto beneficiam quem os proclama não são princípios. São instrumentos. A moral passa a ser utilizada como arma contra o adversário e como proteção para o aliado. Não importa tanto o que foi feito, mas quem fez. Não importa tanto a transgressão, mas a posição social de quem transgrediu.


Por isso, a crítica não deveria se limitar àquilo que essas pessoas dizem. É preciso observar aquilo que fazem quando acreditam que ninguém está olhando. Porque existe uma diferença enorme entre defender uma regra e defendê-la apenas quando ela serve aos próprios interesses. Existe uma diferença entre acreditar na justiça e acreditar que a justiça deve alcançar somente os outros. E existe uma diferença ainda maior entre ter princípios e utilizar princípios como fantasia para esconder conveniências.


No fundo, essa é a essência da picaretagem política: vender virtude enquanto se pratica o contrário, exigir dos outros aquilo que não se exige de si mesmo e transformar dinheiro e poder em uma espécie de salvo-conduto moral. Uma sociedade verdadeiramente democrática não pode aceitar que existam cidadãos acima da regra e cidadãos abaixo dela. A lei não pode ter preço, a moral não pode ter proprietário e a responsabilidade não pode depender do tamanho da conta bancária. Se pode fazer quem tem poder, então não estamos diante da liberdade. Estamos diante do privilégio.


A Mamaçonaria: a fraternidade oculta da hipocrisia conservadora - William Contraponto


A Mamaçonaria: a fraternidade oculta da hipocrisia conservadora

William Contraponto 


Há uma contradição particularmente curiosa em determinados setores da extrema direita que se apresentam como defensores da tradição, da família e dos valores religiosos, ao mesmo tempo em que demonstram uma obsessão desproporcional com a existência pública dos homossexuais e das pessoas LGBT.

A questão que se coloca é incômoda: o que exatamente alguns desses conservadores pretendem conservar?

Pode-se imaginar, como hipótese crítica, a existência de indivíduos que, sendo homossexuais, não assumem publicamente sua sexualidade e encontram no conservadorismo uma forma de proteção. Ao combaterem a manifestação aberta do amor entre pessoas do mesmo sexo, estariam também ajudando a preservar o ambiente social no qual a própria homossexualidade precisa permanecer escondida.

Nesse cenário hipotético, a clandestinidade deixa de ser apenas uma condição individual e transforma-se em uma espécie de mecanismo coletivo. Uns saberiam dos outros. Uns protegeriam os outros. E todos manteriam, diante da sociedade, a imagem de homens tradicionais, religiosos, moralmente rigorosos e supostamente incompatíveis com aquilo que secretamente viveriam.

O paradoxo seria profundo: quanto mais hostil a sociedade pública se torna à homossexualidade, maior pode ser o valor do segredo para aqueles que possuem poder suficiente para sobreviver dentro dele.

O homossexual assumido, entretanto, rompe essa lógica.

Ele não precisa esconder o amor, não precisa construir uma identidade paralela, não precisa negociar sua existência através da cumplicidade de outros homens igualmente ocultos. Ele aparece à luz do dia. Ama à luz do dia. Vive à luz do dia. E justamente por isso pode representar uma ameaça simbólica à estrutura baseada na ocultação.

A existência de gays que vivem abertamente demonstra que não é necessário preservar uma sociedade na qual a homossexualidade precise ser clandestina.

É nesse ponto que surge a minha provocação: mamaçonaria.

O termo nasce da fusão deliberadamente irônica entre “mamar” e “maçonaria”. Não se trata aqui de uma acusação factual contra pessoas determinadas, mas de uma imagem satírica para representar uma suposta fraternidade clandestina de homens que, publicamente, sustentariam uma moral conservadora enquanto, privadamente, compartilhariam segredos, desejos, favores e mecanismos de proteção.

Uma sociedade oculta dentro da sociedade.

Uma fraternidade na qual o segredo seria uma moeda de poder.

Um saberia quem é o outro, e justamente por saber poderia protegê-lo. Ou até exigir dele alguma coisa. A manutenção da aparência tradicional deixaria de ser apenas uma questão moral e passaria a funcionar como uma espécie de pacto de sobrevivência política e social.

O mais perverso dessa hipótese seria que o homossexual assumido não faria parte desse pacto.

Ele seria justamente aquele que rompe o código.

Porque não aceita a clandestinidade como condição de existência. Não aceita que o amor precise ser negociado com o medo. Não aceita que a sexualidade seja utilizada como instrumento de controle, chantagem, proteção ou privilégio.

Assim, a crítica não está dirigida ao homossexual que é conservador, nem à orientação sexual de qualquer indivíduo. Um homem gay pode ser conservador, religioso ou de direita. Isso, por si só, não contém contradição alguma.

A contradição aparece quando a defesa pública da repressão àquilo que alguém vive secretamente passa a servir como instrumento de poder.

Entao, fica uma pergunta:

Quando alguém luta para manter outros homossexuais escondidos, está defendendo a tradição ou está defendendo o próprio esconderijo?

A “mamaçonaria” é menos uma sociedade concreta do que uma metáfora para uma determinada forma de hipocrisia: homens que poderiam utilizar a própria clandestinidade como capital político, protegendo-se mutuamente enquanto combatem aqueles que decidiram viver sem esconder quem são.

Porque há algo que o poder oculto não suporta:

A liberdade de quem já não precisa esconder nada.




Ceuta ‐ William Contraponto

 



CEUTA

WILLIAM CONTRAPONTO 


Existem cidades carregadas de perguntas,

mesmo quando o tempo já passou,

suas ruas carregam muitas lutas,

e cada geração algo acrescentou.


Ali diferentes vozes se encontram,

trazendo no nome memória e razão,

antigos conflitos lentamente se transformam

quando o diálogo supera a separação.


No azul que une as margens,

há uma força a despertar,

e aquilo que parecia distante

pode enfim se aproximar.


Ceuta vive como pensamento,

mais profunda que sua própria história,

um nome que vence calendários

sem depender de conquista ou glória.


Nesse lugar o mundo pode ser compreendido

como encontro de múltiplas realidades,

e o passado, quando é revisitado,

revela outras possibilidades.


No azul que une as margens,

há uma força a despertar,

e aquilo que parecia distante

pode enfim se aproximar.


O que rompe o tempo

pode alcançar outra dimensão:

vidas distintas compartilhando o momento,

e a humanidade encontrando nova compreensão.



Maurício Rodrigues Lucas- Atualização

 Ontem, 29, Maurício foi desintubado. Ainda sem se expressar corretamente.  Por resquício da sedação. 

Contudo, entendia tudo praticamente do que  eu falava. Por exemplo,  pedia para ele me "dar um sorrisão lindo" e ele sorria com entusiasmo.

E enquanto eu dizia que ele é o amor da minha vida, o amor de todo meu coração,  que  ele mora dentro do meu coração, que  ele éa minha vida! ... ele sussurrava com determinação que  me ama. Foi um longo diálogo assim. Cantei como sempre a musiquinha de ninar que  desde o nosso início canto pra ele. É como eu compreendia seus sussurros ele sorria alegre por isso.

Mas, infelizmente,  hoje pela manhã o médico decidiu intubá-lo novamente por conta da forte dificuldade para respirar de forma natural. 


Agora, aguardo a equipe médica principal fazer um novo diagnóstico. 



Em tempo: nessa segunda-feira retiraram o tubo e colocaram máscara de respiração 


Escrevi ontem: