O HOMEM DE ASSIS - WILLIAM CONTRAPONTO

 O Homem de Assis 

William Contraponto 


Um homem deixou o ouro para trás,

sem medo da pobreza que encontraria;

descobriu que possuir sempre é querer mais,

e que o pouco também podia ser companhia.


Chamaram-no santo depois de sua partida,

como se um título explicasse sua existência;

mas havia um homem inteiro naquela vida,

mais próximo da terra que da aparência.


Francisco olhava o mundo sem possuí-lo,

tocava a vida sem querer dominá-la;

e fez da própria escolha um modo de senti-lo,

sem transformar a existência em mercadoria.


Eu não sigo a fé que guiava seus passos,

nem vejo no céu respostas ao que somos;

mas reconheço, diante dos nossos excessos,

a grandeza de desejar menos do que temos.


Quando o tempo transforma homens em sinais,

resta a pergunta que nenhum altar encerra:

o que vale uma vida entre tantos ideais

quando se aprende a possuir somente a terra?


NÃO É REVOLTA - William Contraponto (William Gogolenko Risther)

 



NÃO É REVOLTA

William Contraponto (William Gogolenko Risther)


Não é revolta. É consciência.

Eu fui médium espírita. Fui pai de santo de Umbanda, cacique. Não me revoltei com essas religiões por nada pessoal. Nem com elas, nem com as demais. Foi a consciência que se desprendeu das crenças religiosas. 

Na minha experiência pessoal  compreendi apenas que aquilo era algo condicionado. Devido a crenças familiares que me moldaram e  nelas adentrei...

Mas a vida e suas situações não se resumem às explicações toscas e pouco avançadas que as religiões oferecem. É natural que quem não queira pensar além, ou se beneficie de explicações transcendentais para questões humanas, queira manter essa visão limitada pelos dogmas. Até  para manter vítimas caladas achando que  certas práticas são naturais ou, se expostas, a punição vem do além. 

Há religiosos cruéis com os seus e benevolentes com os demais. Usam a religiosidade como uma espécie de verniz. Ou disfarce. E isso para que ninguém questione suas ações no campo das relações reais.

Se eu me desprendi dessa lógica nefasta, à qual fui condicionado para não revelar as crueldades que vivi, foi porque as convicções que construí a partir da reflexão me levaram a questionar aquilo que antes eu apenas aceitava.

Não houve apenas coragem nesse processo. Houve dor.

Porque romper com uma estrutura que nos ensinou a calar também significa encarar aquilo que foi escondido, justificado ou transformado em obrigação.


Para me livrar da dor, foi preciso coragem.

A coragem de romper as correntes.


Ternopil - William Contraponto




TERNOPIL

William Contraponto


Um sino divide a manhã ao meio,

e ninguém pergunta o que ele anuncia;

há nomes adormecidos no passeio,

sob a rotina exata de cada dia.


Um homem passa diante de uma porta,

detém-se apenas pelo que não vê;

alguma coisa antiga ainda o importa,

sem que ele saiba exatamente o quê.


Nessas paredes o tempo perde a pressa,

mas deixa sua marca sem intenção;

uma cidade muda quando atravessa

a memória de outra geração.


Nem toda origem pede reconhecimento,

nem todo retorno precisa acontecer;

há coisas que sobrevivem ao momento

somente porque recusam desaparecer.


Ternopil segue o curso das horas,

indiferente ao que ficou para trás;

e há quem descubra, entre partidas e auroras,

que certas distâncias nunca são iguais.


Maurício Rodrigues Lucas

 Maurício Rodrigues Lucas 


Maurício Rodrigues Lucas,  o Maumau,  está na UTI do Hospital de Clínicas de Porto Alegre.  Todos seus amigos e parentes podem visitá-lo nos seguintes horários:




Azov - William Contraponto

 AZOV

William Contraponto 


Pequeno mar de águas rasas,

guardando o peso de outra extensão.

Suas margens carregam tantas marcas

que o tempo já perdeu a dimensão.


Terras se encontram nas suas águas,

navegantes cruzam seu horizonte.

Cada corrente carrega antigas mágoas,

cada margem conhece sua própria fonte.


O mundo desenha suas barcas,

e a história insiste em prosseguir.

Cada margem guarda suas marcas,

cada corrente conhece o partir.


Não mede a grandeza pelo espaço,

nem pela distância até o cais.

Há mundos inteiros em pouco traço,

e conflitos maiores que seus sinais.


Quando as águas mudam de rumo,

nenhuma margem segue igual.

O que parecia pequeno no mundo

revela a força de um temporal.