Azov - William Contraponto

 AZOV

William Contraponto 


Pequeno mar de águas rasas,

guardando o peso de outra extensão.

Suas margens carregam tantas marcas

que o tempo já perdeu a dimensão.


Terras se encontram nas suas águas,

navegantes cruzam seu horizonte.

Cada corrente carrega antigas mágoas,

cada margem conhece sua própria fonte.


O mundo desenha suas barcas,

e a história insiste em prosseguir.

Cada margem guarda suas marcas,

cada corrente conhece o partir.


Não mede a grandeza pelo espaço,

nem pela distância até o cais.

Há mundos inteiros em pouco traço,

e conflitos maiores que seus sinais.


Quando as águas mudam de rumo,

nenhuma margem segue igual.

O que parecia pequeno no mundo

revela a força de um temporal.


A MESMA ESTRADA - WILLIAM CONTRAPONTO




A MESMA ESTRADA

William Contraponto 


Há uma fronteira desenhada no chão,

mas ninguém nasceu dentro dela,

há mil maneiras de chamar de nação,

e uma só humanidade sob a estrela.


Cada povo carrega sua própria memória,

seu jeito de cair e recomeçar,

não existe um caminho escrito na história,

nem uma única forma de caminhar.


Vamos deixar as portas abertas,

deixar o futuro entrar,

se somos vozes tão diferentes,

há uma canção para compartilhar.

Nenhum de nós possui o amanhã,

nenhum de nós pode o controlar,

somos partes de uma mesma estrada,

aprendendo juntos a caminhar.


Há quem construa muros por medo,

há quem transforme a fé em poder,

mas nenhuma bandeira guarda um segredo

que impeça outro povo de escolher.


Que a liberdade não seja privilégio,

que a justiça encontre seu lugar,

que toda criança receba um começo

antes que alguém lhe ensine a odiar.


Vamos deixar as portas abertas,

deixar o futuro entrar,

se somos vozes tão diferentes,

há uma canção para compartilhar.

Nenhum de nós possui o amanhã,

nenhum de nós pode o controlar,

somos partes de uma mesma estrada,

aprendendo juntos a caminhar.


Não precisamos pensar igualmente

para descobrir o que podemos ser,

basta reconhecer no outro, frente a frente,

o mesmo direito de existir e escolher.


E quando a última fronteira desaparecer,

não haverá vitória de um sobre alguém,

haverá somente o que pudermos fazer

para que a liberdade alcance também.


Se cada país é uma experiência,

se cada povo tem algo a ensinar,

talvez a maior revolução da existência

seja aprender sem deixar de questionar.


O Muro de Adriano - William Contraponto

 



O MURO DE ADRIANO

William Contraponto


Há palavras caminhando pela sala,

sem encontrar destino ao terminar;

cada resposta contorna o que se fala,

como quem teme enfim se revelar.


No espaço das vozes cresce uma parede,

construída devagar por precaução;

cada pergunta esbarra no que impede

que a fala alcance o centro da questão.


O diálogo prossegue, mas não avança,

repete os mesmos passos pelo chão;

há muito movimento, pouca mudança,

e toda frase retorna à mesma mão.


Roma também subiu seu grande limite,

para conter o que vinha de outro lugar;

há muros que nenhum exército derrube,

quando duas pessoas deixam de atravessar.


Vestígios do Passado - William Contraponto (William Gogolenko Risther)



 Já  passei por acidente de automóvel quando criança. Estive em coma. Guardo seguelas físicas notáveis até os dias atuais. Porém,  o meu maior trauma é outro e cujas seguelas vão muito além da questão física. 


Existem  dores que o tempo não  apaga. E o esquecimento é  impossível.  Acredito  que todas as pessoas que passam por esta situação carregam as marcas do ocorrido na alma por toda a vida.


Já mencionei em algum outro momento o fato. Sem dar detalhes, pois é  extremamente dolorido escrever sobre tais e sobre a responsabilidade do acontecido. Mas, em nome de elucidar e prevenir para que  ninguém mais sofra o mesmo pelas mesmas mãos.


Para tanto, usarei o presente espaço. Destoando da criação artística aqui apresentada para poder dar voz a acontecimentos que até aqui ficaram restritos e os quais buscarei colocar luz sobre com a intenção exposta no parágrafo anterior.  Utilizarei o método de uma série de publicações para expor o ocorrido.  Faço isso, pois, como disse, relatar tudo de uma única só vez é sofrido e desgastante emocionalmente. 


Como disse, o trauma não é tal o acidente. Trata-se do que podemos chamar de grande maldade em relação a uma criança. 




A Maré - William Contraponto

 



A MARÉ

William Contraponto


A maré desenha o caminho,

depois o cobre sem avisar;

a pedra permanece no destino,

enquanto a água insiste em mudar.


Há momentos em que tudo se alcança,

noutros, o solo deixa de aparecer;

o tempo também muda a distância

sem perguntar o que deve acontecer.


No alto, permanece a construção,

vendo as águas tomarem o lugar;

não há promessa de permanência,

nem certeza de quando retornar.


A paisagem aprende outra forma,

quando a água decide avançar;

o que parecia ser norma

também pode se transformar.


E quando a maré novamente recua,

surge o caminho que estava oculto;

a realidade não segue apenas nua

diante do movimento absoluto.