O Muro de Adriano - William Contraponto

 



O MURO DE ADRIANO

William Contraponto


Há palavras caminhando pela sala,

sem encontrar destino ao terminar;

cada resposta contorna o que se fala,

como quem teme enfim se revelar.


No espaço das vozes cresce uma parede,

construída devagar por precaução;

cada pergunta esbarra no que impede

que a fala alcance o centro da questão.


O diálogo prossegue, mas não avança,

repete os mesmos passos pelo chão;

há muito movimento, pouca mudança,

e toda frase retorna à mesma mão.


Roma também subiu seu grande limite,

para conter o que vinha de outro lugar;

há muros que nenhum exército derrube,

quando duas pessoas deixam de atravessar.


Vestígios do Passado - William Contraponto (William Gogolenko Risther)



 Já  passei por acidente de automóvel quando criança. Estive em coma. Guardo seguelas físicas notáveis até os dias atuais. Porém,  o meu maior trauma é outro e cujas seguelas vão muito além da questão física. 


Existem  dores que o tempo não  apaga. E o esquecimento é  impossível.  Acredito  que todas as pessoas que passam por esta situação carregam as marcas do ocorrido na alma por toda a vida.


Já mencionei em algum outro momento o fato. Sem dar detalhes, pois é  extremamente dolorido escrever sobre tais e sobre a responsabilidade do acontecido. Mas, em nome de elucidar e prevenir para que  ninguém mais sofra o mesmo pelas mesmas mãos.


Para tanto, usarei o presente espaço. Destoando da criação artística aqui apresentada para poder dar voz a acontecimentos que até aqui ficaram restritos e os quais buscarei colocar luz sobre com a intenção exposta no parágrafo anterior.  Utilizarei o método de uma série de publicações para expor o ocorrido.  Faço isso, pois, como disse, relatar tudo de uma única só vez é sofrido e desgastante emocionalmente. 


Como disse, o trauma não é tal o acidente. Trata-se do que podemos chamar de grande maldade em relação a uma criança. 




A Maré - William Contraponto

 



A MARÉ

William Contraponto


A maré desenha o caminho,

depois o cobre sem avisar;

a pedra permanece no destino,

enquanto a água insiste em mudar.


Há momentos em que tudo se alcança,

noutros, o solo deixa de aparecer;

o tempo também muda a distância

sem perguntar o que deve acontecer.


No alto, permanece a construção,

vendo as águas tomarem o lugar;

não há promessa de permanência,

nem certeza de quando retornar.


A paisagem aprende outra forma,

quando a água decide avançar;

o que parecia ser norma

também pode se transformar.


E quando a maré novamente recua,

surge o caminho que estava oculto;

a realidade não segue apenas nua

diante do movimento absoluto.


Parágrafo 175 - William Contraponto




PARÁGRAFO 175


Dois homens dividiam a mesma espera,

duas vidas guardadas pela discrição,

enquanto uma norma fria e severa

tentava transformar afeto em infração.


Havia um quarto, uma janela, uma cidade,

e um mundo que não lhes permitia escolher,

mas entre os dois permanecia a vontade

de continuar próximos, apesar do poder.


Um número passou a nomear suas vidas,

um papel decidiu aquilo que deveriam ser,

e um triângulo rosa sobre suas roupas

passou a dizer aquilo que não podiam esconder.


Não havia culpa naquele sentimento,

nem havia ameaça naquilo que os unia,

mas o poder transformou um simples vínculo

em motivo para lhes negar a própria alegria.


Depois vieram os portões e a distância,

um lugar onde o medo aprendeu a mandar,

e o tempo perdeu sua importância

diante de um destino impossível de mudar.


Ficaram para trás os dias partilhados,

as conversas, os livros, a antiga afeição,

e dois nomes, quase apagados,

permaneceram guardados pela recordação.


Hoje resta apenas aquela sentença,

fria como um número perdido no papel,

e um triângulo rosa na memória

como testemunho de um tempo cruel.


Porque nenhuma lei possui o direito

de determinar aquilo que alguém pode sentir,

e nenhum poder consegue por decreto

decidir quem merece amar ou existir.



Dois Reis - William Contraponto




DOIS REIS

William Contraponto


Duas coroas sobre a mesma mesa,

dois olhares recusando o papel,

e na distância imposta pelo dever,

um sentimento aprendendo a ser fiel.


Um trazia a força da espada,

Filipe guardava um reino no olhar,

mas havia entre os dois, na madrugada,

uma vontade que não sabia se calar.


Não era o poder que os fazia inteiros,

nem a glória que os fazia permanecer,

eram dois homens, antes de serem guerreiros,

descobrindo outro modo de viver.


O mundo lhes pedia força e aparência,

mas o coração desconhecia tal dever;

há sentimentos que vencem a prudência

quando encontram alguém capaz de compreender.


E quando o tempo fechou suas cortinas,

restou aquilo que ninguém pôde apagar:

dois reis, duas vidas, duas rotas distintas,

e um afeto que a memória traz a testemunhar.