A MINHA VERDADEIRA LUZ - WILLIAM CONTRAPONTO (WILLIAM GOGOLENKO RISTHER)

 A MINHA VERDADEIRA LUZ

William Contraponto (William Gogolenko Risther)


Ao longo da minha vida, procurei construir minhas convicções por meio da reflexão, da dúvida e do conhecimento. Não encontrei nas crenças religiosas o fundamento para compreender a existência ou orientar minhas escolhas. Foi só pensando por conta própria que defini meus valores, minhas críticas e minha forma de estar no mundo. Por isso, considero importante deixar registrada uma vontade que expressa aquilo em que  acredito.

Se um dia o pensar me fugir na névoa dos dias e minha consciência já não puder responder por mim, peço que ninguém busque explicações ou tratamentos baseados em crenças religiosas. Não desejo que rezas, rituais ou interpretações espirituais ocupem o lugar das decisões que tomei enquanto estava plenamente consciente. Quero que minha trajetória intelectual e filosófica seja respeitada até o fim, da mesma maneira que respeito aqueles que escolhem viver guiados pela fé.

Peço que me amparem com a ciência, com o conhecimento e com o cuidado humano. Confio no trabalho dos profissionais da saúde, na ética, na pesquisa e no compromisso de aliviar o sofrimento por meio das melhores evidências disponíveis. Também espero que o afeto daqueles que estiverem ao meu lado seja suficiente para oferecer conforto, sem a necessidade de recorrer a crenças que nunca fizeram parte da minha maneira de compreender a realidade.

Não escrevo estas palavras por rejeição às pessoas religiosas, mas por fidelidade àquilo que sou. Sempre defendi que cada indivíduo deve ser livre para acreditar ou para não acreditar. Da mesma forma que nunca desejei impor minhas convicções a ninguém, peço que as convicções de outras pessoas não sejam impostas a mim quando eu já não puder expressar minha própria vontade.

Se minha consciência vacilar e minha voz se calar, que permaneça viva a decisão que tomei enquanto ainda podia pensar com clareza. Que minha dignidade seja preservada, que minha autonomia seja respeitada e que minha história não seja reescrita pela ausência da minha lucidez. Se algo deve permanecer de mim, que seja o compromisso que sempre assumi com a liberdade de pensamento e com o direito de viver — e de ser cuidado — em coerência com aquilo que escolhi acreditar.


Maumau - William Contraponto

 



Maumau 

William Contraponto (William Gogolenko Risther)


Te conheci no avesso da estrada,

quando o mundo esquecia de nós.

Havia silêncio em cada palavra,

mas teu abraço fazia voz.


Não prometemos céu nem destino,

nem juramentos diante do altar.

Só dividimos o peso dos dias,

sem perguntar onde ia dar.


Maumau,

se o tempo nos feriu, também nos fez.

Nos corredores da tempestade

aprendemos outra forma de viver.


Maumau...

amor não é o nome que se dá.

É quem permanece quando tudo

parece querer desmoronar.


Hoje te vejo travando batalhas

que nem sempre consigo alcançar.

Queria roubar um pouco da dor,

mas só consigo contigo ficar.


Porque às vezes amar é tão simples:

sentar em silêncio, estender a mão.

Ser companhia quando a esperança

esquece o caminho do coração.


E nossos filhos de patas

fazem da casa um pequeno universo.


Bob, o catiolo, corre feliz

como se toda tristeza pudesse perder a corrida.


Baby, a catiola,

deita entre nós sem escolher um lado,

como quem sabe

que amor não precisa tomar partido.


Eles nos lembram, todos os dias,

que carinho é uma linguagem

que nunca precisou de tradução.


Maumau...

se houver manhã, caminharemos nela.

Se houver noite, acenderemos riso

no olhar de Bob e de Baby.


E quando a vida nos pedir coragem,

que ela nos encontre assim:


com as mãos marcadas pelo tempo,

com o coração ainda inteiro,

e com esse amor teimoso,

que insiste em florescer

mesmo onde quase ninguém acredita.

O Deus que Cabe no Patriarcado - William Contraponto



O Deus que Cabe no Patriarcado

William Contraponto 


Há quem levante a Bíblia com uma mão e, com a outra, sustente as velhas estruturas de dominação. Chamam isso de fé. Eu chamo de conveniência.

Se Deus é amor, por que tantos transformaram esse amor em instrumento de controle? Se a compaixão fosse realmente o centro de suas crenças, não haveria tanto entusiasmo em decidir quem pode amar, quem pode falar, quem deve obedecer e quem merece ser silenciado.

Curioso é perceber que muitos dos que afirmam viver para o céu fazem de tudo para preservar os privilégios da terra. Não defendem apenas uma religião. Defendem uma hierarquia. Um mundo onde o homem manda, a mulher aceita, a diversidade se esconde e a autoridade jamais é questionada. Deus torna-se argumento; o patriarcado, verdadeiro altar.

Não é coincidência. Durante séculos, crenças foram usadas para justificar poderes humanos. Reis governaram em nome do divino. Pais governaram suas casas como pequenos soberanos. Líderes religiosos transformaram interpretações em decretos morais. A transcendência serviu, muitas vezes, para proteger interesses profundamente terrenos.

Como ateu, não vejo nisso uma prova da existência de qualquer divindade. Vejo apenas a extraordinária capacidade humana de criar discursos capazes de legitimar aquilo que já desejava conservar.

A fé pode inspirar gestos de solidariedade, e seria injusto negar isso. Mas também pode servir de escudo para a intolerância quando deixa de ser um caminho pessoal e passa a exigir submissão coletiva. O problema não está na espiritualidade em si, mas na facilidade com que ela é capturada por estruturas de poder.

Talvez a maior blasfêmia não seja deixar de acreditar em Deus. Talvez seja usar Deus para justificar preconceitos, desigualdades e privilégios históricos, enquanto se proclama humildade diante do sagrado.

A ética não precisa de recompensa eterna para existir. O respeito não depende de mandamentos gravados em pedra. A dignidade humana não deveria precisar da autorização de um livro, de um púlpito ou de uma tradição.

Enquanto houver quem confunda autoridade com virtude e dominação com ordem, continuaremos assistindo ao espetáculo de uma religiosidade que fala de amor, mas pratica exclusão; que prega igualdade diante do divino, mas aceita desigualdade entre os vivos.

No fim, talvez a pergunta mais desconfortável não seja se Deus existe.

Talvez seja por que tantos insistem em criar um deus que se parece tanto com aqueles que sempre ocuparam o topo da mesa.


NAO ME APRESENTE O CAOS - WILLIAM CONTRAPONTO




Não Me Apresente o Caos
William Contraponto 

Não me apresente o caos,
Que eu faço dele um mingau,
Esse que se come devagar
Até o fim chegar.

Cada colher tem seu gosto,
Mesmo quando é dissabor;
Quem mastiga a própria noite
Perde o medo da dor.

Não me embriagam promessas,
Nem o brilho do altar;
Prefiro o peso da dúvida
Ao conforto de acreditar.

Se o destino é tempestade,
Faço do vento um varal;
Penduro nele os meus medos
Até secarem no vendaval.

Quando o caos perde a força
Por não me ver recuar,
Descobre que seu império
Nunca soube me dobrar.


Não Foi a Primeira Censura. Não Será a Última - William Contraponto



Não Foi a Primeira Censura. Não Será a Última

Por William Contraponto


Fui excluído das redes da META.

Alguns dirão que foi apenas uma decisão empresarial. Outros afirmarão que se trata do cumprimento de regras internas. Há ainda aqueles que celebrarão o ocorrido, convencidos de que o desaparecimento de uma voz equivale ao desaparecimento das ideias que ela carrega.


Não compartilho dessa crença.

Ao longo da história, toda estrutura de poder desenvolveu seus próprios mecanismos de exclusão. Mudam os instrumentos, mudam os discursos justificadores, mas permanece a tentativa de controlar aquilo que pode ou não circular entre as pessoas. Antes eram púlpitos, tribunais, editoras, governos e jornais. Hoje são algoritmos, plataformas e conglomerados tecnológicos.


Minha exclusão não me surpreende. Minha escrita nunca foi construída para agradar. Não escrevo para confirmar certezas. Escrevo para questioná-las. Não escrevo para servir a dogmas. Escrevo para colocá-los sob exame. Não escrevo para me integrar ao coro. Escrevo porque toda sociedade precisa de vozes dispostas a desafiar a música dominante.


O curioso é que aqueles que mais falam sobre diversidade nem sempre demonstram apreço pela diversidade de pensamento. Há uma diferença profunda entre defender a pluralidade como slogan e aceitá-la como prática. A primeira é confortável. A segunda exige tolerar opiniões, críticas e questionamentos que nem sempre agradam.


Não tenho ilusões sobre o mundo digital. As redes sociais jamais foram territórios neutros. São empresas privadas guiadas por interesses próprios. O que me preocupa não é meu caso individual, mas o precedente que ele representa. Quando poucos grupos concentram a capacidade de determinar quem será ouvido, toda a sociedade deveria prestar atenção.


Mas há algo que a experiência me ensinou.

As ideias não dependem de plataformas para sobreviver. Livros sobreviveram sem redes sociais. Poetas sobreviveram sem algoritmos. Pensadores sobreviveram sem curtidas, compartilhamentos ou métricas de engajamento. A palavra humana sempre encontrou caminhos alternativos quando portas foram fechadas.


Já vi isso acontecer antes. Já testemunhei tentativas de silenciamento em outros espaços. Sobrevivi a elas. Continuarei sobrevivendo.


A META pode excluir perfis. Pode limitar alcance. Pode apagar páginas inteiras. O que não pode fazer é apagar aquilo que já foi lido, pensado e incorporado por outras consciências.


Toda censura parte da mesma ilusão: a de que controlar os meios equivale a controlar as ideias.


A história demonstra exatamente o contrário.

As plataformas passarão.

Os algoritmos passarão.

Os executivos passarão.


As palavras permanecerão.

E eu continuarei escrevendo.


Que seja constado em ata!