Nenhuma Ideia de Aluguel - William Lucas Contraponto



 Nenhuma Ideia de Aluguel

William Lucas Contraponto

Carrego perguntas sem proprietário,
algumas sequer encontram resposta,
não sou discípulo de itinerário,
nem faço da multidão minha aposta.

Não nasci para caber na moldura,
nem para decorar opiniões alheias,
trago nas ideias certa desventura,
de quem não faz da razão uma plateia.

Não visto convicções por encomenda,
nem troco pensamento por aplauso,
há quem faça da própria vida uma venda,
eu prefiro o desconforto ao embaraço.

Carrego perguntas sem proprietário,
algumas sequer encontram resposta,
não sou discípulo de itinerário,
nem faço da multidão minha aposta.

Já ouvi enormes discursos sem conteúdo,
pequenos homens vestidos de grandeza,
quem pensa por conta própria perde o escudo,
mas ganha o direito à própria defesa.

Se um dia me perguntarem pelo destino,
direi que não frequento tal cartilha:
sou responsável pelo meu raciocínio,
não nasci para caminhar em fila.

Carrego perguntas sem proprietário,
algumas sequer encontram resposta,
não sou discípulo de itinerário,
nem faço da multidão minha aposta.

Amor é Amor. Ideologia Política é Ideologia Política

 

Amor é Amor. Ideologia Política é Ideologia Política.

A sociedade contemporânea parece atravessar uma dificuldade crescente em distinguir identidade política de convivência social. Em muitos espaços, as pessoas passaram a ser avaliadas, acolhidas ou rejeitadas não necessariamente por suas atitudes, seu caráter ou sua contribuição coletiva, mas pela posição ideológica que manifestam.

É uma confusão que merece reflexão.

A política é parte fundamental da organização social. Envolve projetos de sociedade, concepções econômicas, princípios, direitos, deveres e diferentes interpretações sobre os caminhos que uma comunidade deve seguir. É natural, portanto, que existam divergências. Aliás, uma sociedade democrática não apenas admite diferenças: depende delas para manter vivo o debate público.

Minha própria trajetória me colocou em contato com diferentes realidades sociais, políticas e humanas. Ao longo de aproximadamente duas décadas, estive envolvido com movimentos sociais, participação política, comunicação comunitária e iniciativas de organização coletiva. Vivi experiências que me permitiram compreender que a sociedade é muito mais complexa do que as divisões partidárias costumam sugerir.

Na comunicação, especialmente na experiência com o rádio comunitário, aprendi que o espaço público precisa comportar diferentes vozes. Na participação social, compreendi que as necessidades humanas não costumam perguntar a qual partido pertence aquele que precisa de ajuda, reconhecimento ou dignidade. E na militância, conheci tanto a importância da organização coletiva quanto os problemas que surgem quando divergências internas passam a ser tratadas como incompatibilidades humanas.

Também aprendi que estar do mesmo lado de uma determinada pauta não significa necessariamente compartilhar todas as ideias, estratégias ou interpretações de quem a defende. Existem diferenças dentro dos próprios movimentos sociais, assim como existem contradições entre pessoas que compartilham uma mesma identificação política.

Por isso, considero preocupante a transformação da identidade ideológica em uma espécie de documento de autorização para a convivência social.

Amor é amor. Ideologia política é ideologia política.

No campo social, essa distinção significa compreender que a solidariedade não precisa de partido, que a empatia não exige alinhamento ideológico e que o respeito à dignidade humana não deve depender de filiação partidária, preferência eleitoral ou concordância com determinada corrente de pensamento.

Isso não significa relativizar princípios ou ignorar a gravidade de determinadas posições. Não existe obrigação democrática de aceitar discursos que defendam a supressão de direitos, a discriminação ou a destruição das próprias condições que permitem a liberdade coletiva. Pluralismo não é ausência de princípios, assim como tolerância não significa aceitar a intolerância como regra.

Mas há uma diferença considerável entre combater ideias e transformar pessoas em inimigas por qualquer divergência. Uma coisa é estabelecer limites éticos e políticos; outra é reproduzir, dentro dos próprios espaços de convivência, os mecanismos de exclusão que tantas vezes criticamos na sociedade.

Ao longo da minha trajetória, defendi causas, sustentei posicionamentos e construí minhas próprias convicções. Não tenho necessidade de esconder minhas referências políticas para parecer mais aceitável. Tampouco considero que a coerência exija tratar todos aqueles que pensam diferentemente de mim como adversários em todas as circunstâncias.

O problema está em transformar a sociedade em uma sucessão de grupos fechados, nos quais cada indivíduo reconhece como legítimo apenas aquele que compartilha suas convicções. Essa lógica empobrece o debate, alimenta antagonismos e enfraquece a possibilidade de construção coletiva.

Uma comunidade não é um partido político. Uma cidade não é um comitê eleitoral. Uma sociedade não pode ser reduzida à soma de suas disputas ideológicas.

Precisamos recuperar a compreensão de que existem espaços comuns, interesses coletivos e necessidades humanas que ultrapassam as fronteiras partidárias. Saúde, educação, segurança, cultura, moradia, trabalho, dignidade e liberdade são questões que dizem respeito à sociedade inteira.

A democracia não exige que todos pensem da mesma maneira. Exige que reconheçamos a legitimidade da participação, do contraditório e da pluralidade, dentro dos limites dos direitos fundamentais.

Defender uma posição política é legítimo. Fazer dela uma medida absoluta para determinar o valor social de alguém é outra coisa.

Não escrevo isso por ausência de posicionamento. Escrevo justamente porque tenho posicionamentos. Acredito que convicções precisam ser defendidas, debatidas e submetidas à reflexão. Não precisam, entretanto, transformar cada espaço social em uma extensão das disputas partidárias.

Minha defesa é a da convivência democrática, da dignidade humana e da possibilidade de construirmos algo em comum, mesmo quando nossas interpretações sobre a sociedade não coincidem.

Uma sociedade verdadeiramente democrática não é aquela em que todos concordam, mas aquela em que as diferenças não impedem o reconhecimento dos direitos, da dignidade e da humanidade de cada pessoa.

Afinal, não precisamos de uniformidade para construir unidade. Precisamos de consciência para compreender onde termina a divergência política e onde começa a responsabilidade humana e social.

William Contraponto

26 de Outubro: Um mês de luto.

 



26 de Outubro: Um mês de luto por meu amor. 

Os últimos dias tem sido os mais difíceis. Até o O pânico tem se manifestado todas as noites. Me sinto um trapo velho. Sem ter a noção exata do tempo. Vivo perdido nos dias, nas horas... tem dias que penso um dia adiante, outro um dia atrás. O sentido virou todo lembranças. 

Não sei quanto tempo essas dores vão estar tão presentes e oferecendo esses enganos. 

Não sei como fugir desse teste. Nós éramos um. É a dor de perder 50% de mim.

Esse é o luto. Se não for para me compreender de forma humana, com sensibilidade, entendendo esse período, então... isso não tem como desenhar. É intenso demais para tanto.

Infelizmente descobri que expressar um amor pela data da sua passagem para a eternidade, para a memória gera raiva. Mesmo assim, expressarei sempre o meu amor em momentos como o presente.



Um Canto de Amor, Memória e Respeito - William Contraponto



UM CANTO DE AMOR, MEMÓRIA E RESPEITO


Como se pode ver na imagem, fiz um canto de homenagem ao Maurício, na casa onde vivíamos. Nele, estão presentes dois santos, um crucifixo e um terço.

Mas como explicar isso sendo eu ateu?

Acontece que, quando me desprendi das crenças espirituais e religiosas, Maurício seguiu outro caminho. Ele deixou as crenças espiritualistas, mas manteve viva sua identidade católica.

Por isso, esse espaço não representa uma mudança nas minhas convicções, mas o respeito àquilo em que ele acreditava. É uma homenagem à sua memória, à sua história e também à sua identidade.

Não precisamos compartilhar as mesmas crenças para respeitar aquilo que faz parte da vida de quem amamos. Eu não preciso acreditar para compreender o significado que esses símbolos tinham para ele. Até  pelo motivo que um dia acreditei e sei a força do significado disso para quem crê. 

Esse canto é, acima de tudo, uma expressão do meu amor pelo Maurício. É uma forma de preservar sua memória respeitando quem ele foi, inclusive naquilo em que nossas convicções eram diferentes.

Porque amar também é isso: respeitar a individualidade do outro, sem exigir que ele seja igual a nós. E, mesmo depois da sua partida, continuo respeitando aquilo que fez parte da sua vida.


William Contraponto


O Luto

 



O Luto

Eu nem sei quanto tempo durará. E nem sei se terá fim. 

Cada canto, cada ação, cada som que se faz... tudo carrega lembrança de momentos,  palavras, jeito de realizar algo, enfim... um oceano inesgotável de lembranças. E elas causam a saudade mais implacável. Aquela que rasga o peito de dor enquanto o soluço que acompanha o  choro ecoa pela casa vazia daquela presença física.

Por ora, busco fotos, as reproduzo em forma de arte como um jeitinho de homenagear o meu amor. Espalho pela casa recordações, pois não tem como ser diferente de qualquer forma.

A essência do Maumau ( Maurício Rodrigues Lucas) vive entre Bob,  Baby e eu. A essência daquilo que ele nos deixou: o amor por essa nossa vida pacata,  sincera e simples. Exatamente  como a alma dele.

Não sou mais o mesmo. Com ele partiu ao menos metade de mim. É irrecuperável essa metade. E eu não quero substituir por algo. No máximo só posso aprender a  viver amputado, pela metade.

Esse momento tem sido de lembranças,  saudade, dor e choro. E o único ponto de saída tem sido movimentar o pensamento em torno de maneiras de homenagear a sua passagem pelas nossas vidas. Seja num painel, numa missa, doações, orações ou poema.