A MESMA ESTRADA - WILLIAM CONTRAPONTO




A MESMA ESTRADA

William Contraponto 


Há uma fronteira desenhada no chão,

mas ninguém nasceu dentro dela,

há mil maneiras de chamar de nação,

e uma só humanidade sob a estrela.


Cada povo carrega sua própria memória,

seu jeito de cair e recomeçar,

não existe um caminho escrito na história,

nem uma única forma de caminhar.


Vamos deixar as portas abertas,

deixar o futuro entrar,

se somos vozes tão diferentes,

há uma canção para compartilhar.

Nenhum de nós possui o amanhã,

nenhum de nós pode o controlar,

somos partes de uma mesma estrada,

aprendendo juntos a caminhar.


Há quem construa muros por medo,

há quem transforme a fé em poder,

mas nenhuma bandeira guarda um segredo

que impeça outro povo de escolher.


Que a liberdade não seja privilégio,

que a justiça encontre seu lugar,

que toda criança receba um começo

antes que alguém lhe ensine a odiar.


Vamos deixar as portas abertas,

deixar o futuro entrar,

se somos vozes tão diferentes,

há uma canção para compartilhar.

Nenhum de nós possui o amanhã,

nenhum de nós pode o controlar,

somos partes de uma mesma estrada,

aprendendo juntos a caminhar.


Não precisamos pensar igualmente

para descobrir o que podemos ser,

basta reconhecer no outro, frente a frente,

o mesmo direito de existir e escolher.


E quando a última fronteira desaparecer,

não haverá vitória de um sobre alguém,

haverá somente o que pudermos fazer

para que a liberdade alcance também.


Se cada país é uma experiência,

se cada povo tem algo a ensinar,

talvez a maior revolução da existência

seja aprender sem deixar de questionar.


O Muro de Adriano - William Contraponto

 



O MURO DE ADRIANO

William Contraponto


Há palavras caminhando pela sala,

sem encontrar destino ao terminar;

cada resposta contorna o que se fala,

como quem teme enfim se revelar.


No espaço das vozes cresce uma parede,

construída devagar por precaução;

cada pergunta esbarra no que impede

que a fala alcance o centro da questão.


O diálogo prossegue, mas não avança,

repete os mesmos passos pelo chão;

há muito movimento, pouca mudança,

e toda frase retorna à mesma mão.


Roma também subiu seu grande limite,

para conter o que vinha de outro lugar;

há muros que nenhum exército derrube,

quando duas pessoas deixam de atravessar.


Vestígios do Passado - William Contraponto (William Gogolenko Risther)



 Já  passei por acidente de automóvel quando criança. Estive em coma. Guardo seguelas físicas notáveis até os dias atuais. Porém,  o meu maior trauma é outro e cujas seguelas vão muito além da questão física. 


Existem  dores que o tempo não  apaga. E o esquecimento é  impossível.  Acredito  que todas as pessoas que passam por esta situação carregam as marcas do ocorrido na alma por toda a vida.


Já mencionei em algum outro momento o fato. Sem dar detalhes, pois é  extremamente dolorido escrever sobre tais e sobre a responsabilidade do acontecido. Mas, em nome de elucidar e prevenir para que  ninguém mais sofra o mesmo pelas mesmas mãos.


Para tanto, usarei o presente espaço. Destoando da criação artística aqui apresentada para poder dar voz a acontecimentos que até aqui ficaram restritos e os quais buscarei colocar luz sobre com a intenção exposta no parágrafo anterior.  Utilizarei o método de uma série de publicações para expor o ocorrido.  Faço isso, pois, como disse, relatar tudo de uma única só vez é sofrido e desgastante emocionalmente. 


Como disse, o trauma não é tal o acidente. Trata-se do que podemos chamar de grande maldade em relação a uma criança. 




A Maré - William Contraponto

 



A MARÉ

William Contraponto


A maré desenha o caminho,

depois o cobre sem avisar;

a pedra permanece no destino,

enquanto a água insiste em mudar.


Há momentos em que tudo se alcança,

noutros, o solo deixa de aparecer;

o tempo também muda a distância

sem perguntar o que deve acontecer.


No alto, permanece a construção,

vendo as águas tomarem o lugar;

não há promessa de permanência,

nem certeza de quando retornar.


A paisagem aprende outra forma,

quando a água decide avançar;

o que parecia ser norma

também pode se transformar.


E quando a maré novamente recua,

surge o caminho que estava oculto;

a realidade não segue apenas nua

diante do movimento absoluto.


Parágrafo 175 - William Contraponto




PARÁGRAFO 175


Dois homens dividiam a mesma espera,

duas vidas guardadas pela discrição,

enquanto uma norma fria e severa

tentava transformar afeto em infração.


Havia um quarto, uma janela, uma cidade,

e um mundo que não lhes permitia escolher,

mas entre os dois permanecia a vontade

de continuar próximos, apesar do poder.


Um número passou a nomear suas vidas,

um papel decidiu aquilo que deveriam ser,

e um triângulo rosa sobre suas roupas

passou a dizer aquilo que não podiam esconder.


Não havia culpa naquele sentimento,

nem havia ameaça naquilo que os unia,

mas o poder transformou um simples vínculo

em motivo para lhes negar a própria alegria.


Depois vieram os portões e a distância,

um lugar onde o medo aprendeu a mandar,

e o tempo perdeu sua importância

diante de um destino impossível de mudar.


Ficaram para trás os dias partilhados,

as conversas, os livros, a antiga afeição,

e dois nomes, quase apagados,

permaneceram guardados pela recordação.


Hoje resta apenas aquela sentença,

fria como um número perdido no papel,

e um triângulo rosa na memória

como testemunho de um tempo cruel.


Porque nenhuma lei possui o direito

de determinar aquilo que alguém pode sentir,

e nenhum poder consegue por decreto

decidir quem merece amar ou existir.