Parágrafo 175 - William Contraponto




PARÁGRAFO 175


Dois homens dividiam a mesma espera,

duas vidas guardadas pela discrição,

enquanto uma norma fria e severa

tentava transformar afeto em infração.


Havia um quarto, uma janela, uma cidade,

e um mundo que não lhes permitia escolher,

mas entre os dois permanecia a vontade

de continuar próximos, apesar do poder.


Um número passou a nomear suas vidas,

um papel decidiu aquilo que deveriam ser,

e um triângulo rosa sobre suas roupas

passou a dizer aquilo que não podiam esconder.


Não havia culpa naquele sentimento,

nem havia ameaça naquilo que os unia,

mas o poder transformou um simples vínculo

em motivo para lhes negar a própria alegria.


Depois vieram os portões e a distância,

um lugar onde o medo aprendeu a mandar,

e o tempo perdeu sua importância

diante de um destino impossível de mudar.


Ficaram para trás os dias partilhados,

as conversas, os livros, a antiga afeição,

e dois nomes, quase apagados,

permaneceram guardados pela recordação.


Hoje resta apenas aquela sentença,

fria como um número perdido no papel,

e um triângulo rosa na memória

como testemunho de um tempo cruel.


Porque nenhuma lei possui o direito

de determinar aquilo que alguém pode sentir,

e nenhum poder consegue por decreto

decidir quem merece amar ou existir.



Dois Reis - William Contraponto




DOIS REIS

William Contraponto


Duas coroas sobre a mesma mesa,

dois olhares recusando o papel,

e na distância imposta pelo dever,

um sentimento aprendendo a ser fiel.


Um trazia a força da espada,

Filipe guardava um reino no olhar,

mas havia entre os dois, na madrugada,

uma vontade que não sabia se calar.


Não era o poder que os fazia inteiros,

nem a glória que os fazia permanecer,

eram dois homens, antes de serem guerreiros,

descobrindo outro modo de viver.


O mundo lhes pedia força e aparência,

mas o coração desconhecia tal dever;

há sentimentos que vencem a prudência

quando encontram alguém capaz de compreender.


E quando o tempo fechou suas cortinas,

restou aquilo que ninguém pôde apagar:

dois reis, duas vidas, duas rotas distintas,

e um afeto que a memória traz a testemunhar.


Biblioteca de Celso - William Contraponto




Biblioteca de Celso

William Contraponto 


Entre colunas, a tarde descia,

e dois desconhecidos buscavam saber,

cada qual carregava sua própria teoria,

sem imaginar o que estava para acontecer.


Discutiam ideias, o tempo e a memória,

autores antigos, perguntas sem fim,

um defendia o peso de uma velha história,

o outro encontrava novos caminhos em si.


As palavras cresceram, perderam fronteiras,

e a conversa deixou de ser apenas razão,

duas inteligências, antes estrangeiras,

descobriram afinidade na mesma direção.


Não houve promessa, nem gesto ensaiado,

somente a vontade de continuar ali,

como se o mundo tivesse, por algum momento,

diminuído o espaço entre mim e ti.


A tarde caiu sobre as antigas colunas,

e ninguém percebeu quando o dia terminou,

as perguntas ficaram entre as ruínas,

enquanto alguma coisa entre os dois começou.


Partiram depois, cada qual por seu caminho,

levando livros, ideias e uma nova questão:

há encontros que não precisam de destino

para transformar discretamente uma existência.


E entre páginas que sobreviveram,

fica aquilo que nenhum livro explicou:

duas pessoas chegaram procurando respostas

e encontraram uma na presença da outra.



Alexandria - William Contraponto




 Alexandria

William Contraponto 


Havia uma cidade voltada para o mar,

onde duas vidas cruzaram sem aviso,

e uma delas aprendeu, ao caminhar,

que certos encontros mudam o juízo.


As ruas guardavam línguas diferentes,

janelas abertas para outro lugar,

e nós éramos dois desconhecidos presentes

num mundo que decidiu nos aproximar.


Não fizemos promessas para o futuro,

nem procuramos respostas para o fim,

deixamos o instante seguir seu curso,

como a maré que encontra outro jardim.


O amor não pede permanência,

nem precisa de um nome para existir,

basta uma breve coincidência

para uma vida inteira se modificar.


Quando a manhã devolveu cada estrada,

ficou no horizonte alguma coisa a brilhar:

não era certeza, nem despedida marcada,

era a vontade de um dia retornar.


O PAÍS QUE AINDA NÃO SOMOS - WILLIAM CONTRAPONTO




O AMANHÃ QUE NÃO ESTÁ PRONTO

WILLIAM CONTRAPONTO 


Não basta levantar cidades ao chão,

se há vidas sem portas para atravessar,

não basta prometer alguma transformação,

se o povo continua sem lugar.


Um país não começa na bandeira,

nem termina no discurso oficial,

começa quando a vida verdadeira

deixa de ser tratada como detalhe banal.


Que a escola ensine a pensar sem tutela,

que a ciência não conheça um patrão,

que o jovem possa escolher sua janela

sem depender do acaso ou da posição.


Que a casa seja mais que quatro paredes,

que a saúde não dependa da sorte,

que ninguém tenha de carregar suas redes

como quem procura sozinho o próprio norte.


Que os trilhos atravessem as distâncias,

levando gente, trabalho e direção,

que a indústria transforme nossas esperanças

em conhecimento, emprego e produção.


Que a terra produza sem ferir a floresta,

que o campo tenha futuro e dignidade,

que o progresso não cobre uma dívida desonesta

daqueles que sustentam a sociedade.


E se houver riqueza escondida no chão,

que ela não termine apenas em dinheiro:

que vire escola, pesquisa e profissão,

que deixe conhecimento no país inteiro.


Não quero uma pátria feita de unanimidade,

onde discordar seja considerado traição;

quero uma democracia com liberdade

para a pergunta, a crítica e a contestação.


Porque ouvir não significa concordar,

e vencer não significa ter sempre razão;

às vezes é preciso perder para escutar

aquilo que faltou à nossa decisão.


Que o governo saiba também se questionar,

que o poder não se confunda com verdade,

que o povo possa entrar, falar e participar

sem pedir licença à autoridade.


Se o orçamento nasce da população,

que volte à população em forma de ação;

não quero promessa vestida de eleição,

quero palavra transformada em realização.


Talvez nenhum projeto alcance a perfeição,

talvez todo caminho carregue algum erro;

mas um país que aceita a correção

já começa a vencer o próprio medo.


Não somos o futuro que alguém desenhou,

nem o passado que insiste em permanecer;

somos aquilo que ainda não se completou,

somos a pergunta que escolheu viver.


Amanhã não pertence ao poder,

nem nasce pronto na mão de alguém;

é escolha de quem decide fazer

do próprio caminho, um caminho também.