Os MUNDOS ESQUECIDOS - WILLIAM CONTRAPONTO

 Os Mundos Esquecidos

William Contraponto 


Talvez já fomos mais do que lembrança, 

E o tempo ocultou nossa passagem; 

Restou da antiga e vasta confiança 

Somente o mito, herança da viagem. 


Se o fogo um dia consumiu cidades,

E o mar levou palácios para o chão, 

Ficaram só fragmentos e verdades 

Guardadas na discreta tradição. 


Quem sabe um templo fosse uma oficina,

Ou um saber tornado devoção;

A história, quando o esquecimento inclina, 

Reveste a perda com imaginação.


Não digo que essa hipótese é verdade, 

Nem quero sugerí-la como religião;

A dúvida preserva a liberdade

De investigar sem qualquer imposição. 


Talvez também sejamos só passagem, 

Um breve instante à beira da erosão; 

O orgulho não resiste à ventania,

Nem vence para sempre a destruição.


Se um novo amanhecer surgir depois,

De outro silêncio feito de poeira, 

Que reste a velha pergunta entre nós:

Quantos mundos perdeu a humanidade inteira? 


Sobre Maumau- William Contraponto

 Sobre Maumau

Eu casei com o maumau. E depois de 10 anos nos separamos. Em três meses ele deixou o outro.  E voltamos a nos falar como amigos. Eu nunca deixei de amá-lo.  Logo, por amizade, ele voltou a morar na minha casa. Nunca voltamos a ser casados, namorados ou ficantes. Era amizade. Pura e sincera... 


Maumau ficou muito  doente. Câncer de fígado,  nódulo  no pulmão e metástase nos ossos. Minha vida desabou. Eu e ele mantivemos durante esse tempo uma relação  que  não era casamento,  nem mesmo de ato sexual. Mas nos mantivemos distantes de outros pares.

 Abdicamos do ato sexual com outros também.  Se não fosse entre nós  também não seria com outros. Tínhamos  medo de nos machucar. Meu pênis,  minha bexiga... Numa tentativa sangrei, então, fissemos esse pacto. E sei que ele cumpriu.  E eu idem. Agora, nossa ligação  não é  só de corpos é  muito além. E toda vez que  penso na possibilidade de estar sem ele eu também  me vejo morto. Conforme nossos algozes ao longo da nossa relação gostariam de nos  ver.

Se NÃO EU, QUEM? - WILLIAM CONTRAPONTO

 SE NÃO EU, QUEM?

Dizem que sou intelectualmente incapaz. Curioso. Se é assim, por que dedicam tanto tempo ao que escrevo? Por que tentam desqualificar o autor em vez de enfrentar as ideias?

Se eu não sou capaz de responder intelectualmente pelo que expresso, quem será?

Nao escondo minhas palavras atrás de gurus, partidos, religiões ou títulos acadêmicos. Tudo o que publico passa pelo meu próprio julgamento. Posso estar certo ou errado, mas cada texto é fruto da minha reflexão. E, quando erro, a responsabilidade é exclusivamente minha.

Não peço que concordem comigo. Peço apenas o mínimo de honestidade intelectual: respondam aos argumentos, não às caricaturas que criam sobre mim.

Há quem ache mais fácil chamar alguém de incapaz do que explicar por que discorda. É um atalho antigo. O insulto exige pouco; o debate exige estudo, paciência e coragem.

Continuarei escrevendo. Continuarei revendo minhas convicções quando houver razões para isso. Continuarei aceitando críticas fundamentadas, porque elas fazem parte do pensamento livre. Mas não aceitarei que tentem reduzir uma vida inteira de leitura, reflexão e escrita a um rótulo conveniente.

No fim das contas, não são os adjetivos que me definem. São as ideias que sou capaz de sustentar, revisar e desenvolver. E, enquanto eu puder responder por aquilo que escrevo, não precisarei que ninguém pense por mim.



Quando Minha Voz Não Puder Mais Falar - WILLIAM CONTRAPONTO (WILLIAM GOGOLENKO RISTHER)



Quando Minha Voz Não Puder Mais Falar

William Contraponto (William Gogolenko Risther)


Ao longo da minha vida, procurei construir minhas convicções por meio da reflexão, da dúvida e do conhecimento. Não encontrei nas crenças religiosas o fundamento para compreender a existência ou orientar minhas escolhas. Foi só pensando por conta própria que defini meus valores, minhas críticas e minha forma de estar no mundo. Por isso, considero importante deixar registrada uma vontade que expressa aquilo em que  acredito.

Se um dia o pensar me fugir na névoa dos dias e minha consciência já não puder responder por mim, peço que ninguém busque explicações ou tratamentos baseados em crenças religiosas. Não desejo que rezas, rituais ou interpretações espirituais ocupem o lugar das decisões que tomei enquanto estava plenamente consciente. Quero que minha trajetória intelectual e filosófica seja respeitada até o fim, da mesma maneira que respeito aqueles que escolhem viver guiados pela fé.

Peço que me amparem com a ciência, com o conhecimento e com o cuidado humano. Confio no trabalho dos profissionais da saúde, na ética, na pesquisa e no compromisso de aliviar o sofrimento por meio das melhores evidências disponíveis. Também espero que o afeto daqueles que estiverem ao meu lado seja suficiente para oferecer conforto, sem a necessidade de recorrer a crenças que deixaram  de fazer parte da minha maneira de compreender a realidade. E deixaram por completo. De forma ética e pela compreensão de que inexistente forças espirituais. 

Não escrevo estas palavras por rejeição às pessoas religiosas, mas por fidelidade àquilo que sou. Sempre defendi que cada indivíduo deve ser livre para acreditar ou para não acreditar. Da mesma forma que nunca desejei impor minhas convicções a ninguém, peço que as convicções de outras pessoas não sejam impostas a mim quando eu já não puder expressar minha própria vontade.

Se minha consciência vacilar e minha voz se calar, que permaneça viva a decisão que tomei enquanto ainda podia pensar com clareza. Que minha dignidade seja preservada, que minha autonomia seja respeitada e que minha história não seja reescrita pela ausência da minha lucidez. Se algo deve permanecer de mim, que seja o compromisso que sempre assumi com a liberdade de pensamento e com o direito de viver — e de ser cuidado — em coerência com aquilo que escolhi acreditar.




....





Extra:


A conta chega. Não porque exista um tribunal invisível ou um castigo sobrenatural, mas porque nenhuma ação deixa de produzir consequências. O mal que fizeste hoje pedirá explicações ou exigirá reparação amanhã. Talvez não diante de mim, talvez nem diante de quem prejudicaste, mas diante da realidade que tu mesmo ajudaste a criar. Há escolhas que voltam como perguntas incômodas e outras que retornam como a necessidade de agir para reparar o que foi quebrado. Esse é o único ajuste de contas em que acredito: o das consequências inevitáveis dos nossos próprios atos.


William Contraponto



Maumau - William Contraponto

 



Maumau 

William Contraponto (William Gogolenko Risther)


Te conheci no avesso da estrada,

quando o mundo esquecia de nós.

Havia silêncio em cada palavra,

mas teu abraço fazia voz.


Não prometemos céu nem destino,

nem juramentos diante do altar.

Só dividimos o peso dos dias,

sem perguntar onde ia dar.


Maumau,

se o tempo nos feriu, também nos fez.

Nos corredores da tempestade

aprendemos outra forma de viver.


Maumau...

amor não é o nome que se dá.

É quem permanece quando tudo

parece querer desmoronar.


Hoje te vejo travando batalhas

que nem sempre consigo alcançar.

Queria roubar um pouco da dor,

mas só consigo contigo ficar.


Porque às vezes amar é tão simples:

sentar em silêncio, estender a mão.

Ser companhia quando a esperança

esquece o caminho do coração.


E nossos filhos de patas

fazem da casa um pequeno universo.


Bob, o catiolo, corre feliz

como se toda tristeza pudesse perder a corrida.


Baby, a catiola,

deita entre nós sem escolher um lado,

como quem sabe

que amor não precisa tomar partido.


Eles nos lembram, todos os dias,

que carinho é uma linguagem

que nunca precisou de tradução.


Maumau...

se houver manhã, caminharemos nela.

Se houver noite, acenderemos riso

no olhar de Bob e de Baby.


E quando a vida nos pedir coragem,

que ela nos encontre assim:


com as mãos marcadas pelo tempo,

com o coração ainda inteiro,

e com esse amor teimoso,

que insiste em florescer

mesmo onde quase ninguém acredita.