Amor é Amor. Ideologia Política é Ideologia Política.
A sociedade contemporânea parece atravessar uma dificuldade crescente em distinguir identidade política de convivência social. Em muitos espaços, as pessoas passaram a ser avaliadas, acolhidas ou rejeitadas não necessariamente por suas atitudes, seu caráter ou sua contribuição coletiva, mas pela posição ideológica que manifestam.
É uma confusão que merece reflexão.
A política é parte fundamental da organização social. Envolve projetos de sociedade, concepções econômicas, princípios, direitos, deveres e diferentes interpretações sobre os caminhos que uma comunidade deve seguir. É natural, portanto, que existam divergências. Aliás, uma sociedade democrática não apenas admite diferenças: depende delas para manter vivo o debate público.
Minha própria trajetória me colocou em contato com diferentes realidades sociais, políticas e humanas. Ao longo de aproximadamente duas décadas, estive envolvido com movimentos sociais, participação política, comunicação comunitária e iniciativas de organização coletiva. Vivi experiências que me permitiram compreender que a sociedade é muito mais complexa do que as divisões partidárias costumam sugerir.
Na comunicação, especialmente na experiência com o rádio comunitário, aprendi que o espaço público precisa comportar diferentes vozes. Na participação social, compreendi que as necessidades humanas não costumam perguntar a qual partido pertence aquele que precisa de ajuda, reconhecimento ou dignidade. E na militância, conheci tanto a importância da organização coletiva quanto os problemas que surgem quando divergências internas passam a ser tratadas como incompatibilidades humanas.
Também aprendi que estar do mesmo lado de uma determinada pauta não significa necessariamente compartilhar todas as ideias, estratégias ou interpretações de quem a defende. Existem diferenças dentro dos próprios movimentos sociais, assim como existem contradições entre pessoas que compartilham uma mesma identificação política.
Por isso, considero preocupante a transformação da identidade ideológica em uma espécie de documento de autorização para a convivência social.
Amor é amor. Ideologia política é ideologia política.
No campo social, essa distinção significa compreender que a solidariedade não precisa de partido, que a empatia não exige alinhamento ideológico e que o respeito à dignidade humana não deve depender de filiação partidária, preferência eleitoral ou concordância com determinada corrente de pensamento.
Isso não significa relativizar princípios ou ignorar a gravidade de determinadas posições. Não existe obrigação democrática de aceitar discursos que defendam a supressão de direitos, a discriminação ou a destruição das próprias condições que permitem a liberdade coletiva. Pluralismo não é ausência de princípios, assim como tolerância não significa aceitar a intolerância como regra.
Mas há uma diferença considerável entre combater ideias e transformar pessoas em inimigas por qualquer divergência. Uma coisa é estabelecer limites éticos e políticos; outra é reproduzir, dentro dos próprios espaços de convivência, os mecanismos de exclusão que tantas vezes criticamos na sociedade.
Ao longo da minha trajetória, defendi causas, sustentei posicionamentos e construí minhas próprias convicções. Não tenho necessidade de esconder minhas referências políticas para parecer mais aceitável. Tampouco considero que a coerência exija tratar todos aqueles que pensam diferentemente de mim como adversários em todas as circunstâncias.
O problema está em transformar a sociedade em uma sucessão de grupos fechados, nos quais cada indivíduo reconhece como legítimo apenas aquele que compartilha suas convicções. Essa lógica empobrece o debate, alimenta antagonismos e enfraquece a possibilidade de construção coletiva.
Uma comunidade não é um partido político. Uma cidade não é um comitê eleitoral. Uma sociedade não pode ser reduzida à soma de suas disputas ideológicas.
Precisamos recuperar a compreensão de que existem espaços comuns, interesses coletivos e necessidades humanas que ultrapassam as fronteiras partidárias. Saúde, educação, segurança, cultura, moradia, trabalho, dignidade e liberdade são questões que dizem respeito à sociedade inteira.
A democracia não exige que todos pensem da mesma maneira. Exige que reconheçamos a legitimidade da participação, do contraditório e da pluralidade, dentro dos limites dos direitos fundamentais.
Defender uma posição política é legítimo. Fazer dela uma medida absoluta para determinar o valor social de alguém é outra coisa.
Não escrevo isso por ausência de posicionamento. Escrevo justamente porque tenho posicionamentos. Acredito que convicções precisam ser defendidas, debatidas e submetidas à reflexão. Não precisam, entretanto, transformar cada espaço social em uma extensão das disputas partidárias.
Minha defesa é a da convivência democrática, da dignidade humana e da possibilidade de construirmos algo em comum, mesmo quando nossas interpretações sobre a sociedade não coincidem.
Uma sociedade verdadeiramente democrática não é aquela em que todos concordam, mas aquela em que as diferenças não impedem o reconhecimento dos direitos, da dignidade e da humanidade de cada pessoa.
Afinal, não precisamos de uniformidade para construir unidade. Precisamos de consciência para compreender onde termina a divergência política e onde começa a responsabilidade humana e social.
William Contraponto