A Mamaçonaria: a fraternidade oculta da hipocrisia conservadora - William Contraponto


A Mamaçonaria: a fraternidade oculta da hipocrisia conservadora

William Contraponto 


Há uma contradição particularmente curiosa em determinados setores da extrema direita que se apresentam como defensores da tradição, da família e dos valores religiosos, ao mesmo tempo em que demonstram uma obsessão desproporcional com a existência pública dos homossexuais e das pessoas LGBT.

A questão que se coloca é incômoda: o que exatamente alguns desses conservadores pretendem conservar?

Pode-se imaginar, como hipótese crítica, a existência de indivíduos que, sendo homossexuais, não assumem publicamente sua sexualidade e encontram no conservadorismo uma forma de proteção. Ao combaterem a manifestação aberta do amor entre pessoas do mesmo sexo, estariam também ajudando a preservar o ambiente social no qual a própria homossexualidade precisa permanecer escondida.

Nesse cenário hipotético, a clandestinidade deixa de ser apenas uma condição individual e transforma-se em uma espécie de mecanismo coletivo. Uns saberiam dos outros. Uns protegeriam os outros. E todos manteriam, diante da sociedade, a imagem de homens tradicionais, religiosos, moralmente rigorosos e supostamente incompatíveis com aquilo que secretamente viveriam.

O paradoxo seria profundo: quanto mais hostil a sociedade pública se torna à homossexualidade, maior pode ser o valor do segredo para aqueles que possuem poder suficiente para sobreviver dentro dele.

O homossexual assumido, entretanto, rompe essa lógica.

Ele não precisa esconder o amor, não precisa construir uma identidade paralela, não precisa negociar sua existência através da cumplicidade de outros homens igualmente ocultos. Ele aparece à luz do dia. Ama à luz do dia. Vive à luz do dia. E justamente por isso pode representar uma ameaça simbólica à estrutura baseada na ocultação.

A existência de gays que vivem abertamente demonstra que não é necessário preservar uma sociedade na qual a homossexualidade precise ser clandestina.

É nesse ponto que surge a minha provocação: mamaçonaria.

O termo nasce da fusão deliberadamente irônica entre “mamar” e “maçonaria”. Não se trata aqui de uma acusação factual contra pessoas determinadas, mas de uma imagem satírica para representar uma suposta fraternidade clandestina de homens que, publicamente, sustentariam uma moral conservadora enquanto, privadamente, compartilhariam segredos, desejos, favores e mecanismos de proteção.

Uma sociedade oculta dentro da sociedade.

Uma fraternidade na qual o segredo seria uma moeda de poder.

Um saberia quem é o outro, e justamente por saber poderia protegê-lo. Ou até exigir dele alguma coisa. A manutenção da aparência tradicional deixaria de ser apenas uma questão moral e passaria a funcionar como uma espécie de pacto de sobrevivência política e social.

O mais perverso dessa hipótese seria que o homossexual assumido não faria parte desse pacto.

Ele seria justamente aquele que rompe o código.

Porque não aceita a clandestinidade como condição de existência. Não aceita que o amor precise ser negociado com o medo. Não aceita que a sexualidade seja utilizada como instrumento de controle, chantagem, proteção ou privilégio.

Assim, a crítica não está dirigida ao homossexual que é conservador, nem à orientação sexual de qualquer indivíduo. Um homem gay pode ser conservador, religioso ou de direita. Isso, por si só, não contém contradição alguma.

A contradição aparece quando a defesa pública da repressão àquilo que alguém vive secretamente passa a servir como instrumento de poder.

Entao, fica uma pergunta:

Quando alguém luta para manter outros homossexuais escondidos, está defendendo a tradição ou está defendendo o próprio esconderijo?

A “mamaçonaria” é menos uma sociedade concreta do que uma metáfora para uma determinada forma de hipocrisia: homens que poderiam utilizar a própria clandestinidade como capital político, protegendo-se mutuamente enquanto combatem aqueles que decidiram viver sem esconder quem são.

Porque há algo que o poder oculto não suporta:

A liberdade de quem já não precisa esconder nada.




Ceuta ‐ William Contraponto

 



CEUTA

WILLIAM CONTRAPONTO 


Existem cidades carregadas de perguntas,

mesmo quando o tempo já passou,

suas ruas carregam muitas lutas,

e cada geração algo acrescentou.


Ali diferentes vozes se encontram,

trazendo no nome memória e razão,

antigos conflitos lentamente se transformam

quando o diálogo supera a separação.


No azul que une as margens,

há uma força a despertar,

e aquilo que parecia distante

pode enfim se aproximar.


Ceuta vive como pensamento,

mais profunda que sua própria história,

um nome que vence calendários

sem depender de conquista ou glória.


Nesse lugar o mundo pode ser compreendido

como encontro de múltiplas realidades,

e o passado, quando é revisitado,

revela outras possibilidades.


No azul que une as margens,

há uma força a despertar,

e aquilo que parecia distante

pode enfim se aproximar.


O que rompe o tempo

pode alcançar outra dimensão:

vidas distintas compartilhando o momento,

e a humanidade encontrando nova compreensão.



Maurício Rodrigues Lucas- Atualização

 Ontem, 29, Maurício foi desintubado. Ainda sem se expressar corretamente.  Por resquício da sedação. 

Contudo, entendia tudo praticamente do que  eu falava. Por exemplo,  pedia para ele me "dar um sorrisão lindo" e ele sorria com entusiasmo.

E enquanto eu dizia que ele é o amor da minha vida, o amor de todo meu coração,  que  ele mora dentro do meu coração, que  ele éa minha vida! ... ele sussurrava com determinação que  me ama. Foi um longo diálogo assim. Cantei como sempre a musiquinha de ninar que  desde o nosso início canto pra ele. É como eu compreendia seus sussurros ele sorria alegre por isso.

Mas, infelizmente,  hoje pela manhã o médico decidiu intubá-lo novamente por conta da forte dificuldade para respirar de forma natural. 


Agora, aguardo a equipe médica principal fazer um novo diagnóstico. 



Em tempo: nessa segunda-feira retiraram o tubo e colocaram máscara de respiração 


Escrevi ontem:




WATERLOO - William Contraponto

 



WATERLOO

William Contraponto 


Há dias em que o homem calcula o futuro,

como quem desenha a rota antes de andar;

faz dos próprios planos um mapa seguro,

sem perceber que o tempo pode mudar.


Constrói suas metas, organiza os passos,

confia que a vontade conduz o que virá;

mas a vida não conhece os seus traçados,

e nem sempre o caminho que se espera dará.


Há quem passe a existência acumulando vitórias,

confundindo o aplauso com alguma razão;

vence batalhas, coleciona histórias,

e chega ao fim sem conhecer a direção.


Então vem Waterloo, sem trombetas ou soldados,

sem bandeiras caindo diante de um rei;

apenas a realidade diante dos olhos cansados,

mostrando que o controle nunca foi uma lei.


Não é preciso perder tudo para compreender,

nem esperar que o mundo nos diga quem somos;

há derrotas que ensinam antes de acontecer,

quando percebemos o preço dos nossos sonhos.


Porque a maior batalha não está no exterior,

nem existe inimigo esperando em algum lugar;

é descobrir, entre o desejo e o temor,

o que vale a pena vencer e o que devemos deixar.


Waterloo não é o fim de uma trajetória,

é o instante em que a consciência vê:

não somos donos do tempo, nem da história,

mas somos responsáveis pelo modo de viver.