O BRASIL NÃO PRECISA DE UM MITO - WILLIAM CONTRAPONTO


O País Não Precisa de um Mito

O Brasil tem uma doença política curiosa: transforma fracassos em símbolos e homens comuns em salvadores. Troca projeto por personagem, programa por slogan, pensamento por torcida. E, quando percebe o estrago, já está discutindo novamente o mesmo personagem como se a história lhe devesse uma segunda temporada.

O bolsonarismo não foi apenas uma candidatura. Foi a industrialização política do ressentimento.

Durante anos, ensinou-se ao brasileiro que pensar era suspeito, que ciência era conspiração, que imprensa era inimiga, que cultura era ameaça e que instituições só eram legítimas quando obedeciam ao lado certo. A política deixou de ser disputa sobre o futuro e passou a ser campeonato de indignações.

Agora, em 2026, o sobrenome continua em campo. Mudou o candidato, mudaram algumas frases, mas permanece a velha arquitetura: transformar medo em voto, conflito em identidade e adversário em inimigo. A política brasileira ainda é convocada a escolher entre o “nós” e o “eles”, como se um país de mais de duzentos milhões de pessoas pudesse caber numa guerra de grupos.

Não pode.

E aqui está o erro que parte da esquerda também comete: imaginar que basta chamar alguém de fascista para vencê-lo. Não basta. A democracia não se defende apenas denunciando a extrema direita; defende-se oferecendo ao cidadão uma razão concreta para acreditar nela.

O Brasil precisa de escola que ensine a pensar, não apenas a repetir. De saúde que funcione antes que a doença vire estatística. De segurança pública que não seja espetáculo. De emprego que não seja favor. De ciência que não precise pedir desculpas por existir. De Estado que proteja sem tutelar.

E precisa, sobretudo, abandonar a infantilização política.

Nenhum presidente é messias. Nenhum partido é dono da verdade. Nenhum eleitor precisa entregar a própria consciência na porta de uma convenção partidária.

O bolsonarismo prosperou justamente onde a razão recuou.

Por isso, enfrentá-lo não significa apenas derrotar Bolsonaro, Flávio Bolsonaro ou qualquer herdeiro eleitoral do sobrenome. Significa derrotar a ideia de que o Brasil precisa de um homem providencial para funcionar.

Não precisa.

Um país sério não procura um salvador.

Procura cidadãos.

E talvez essa seja a coisa mais perigosa que se possa dizer numa eleição: o Brasil não precisa acreditar em ninguém. Precisa aprender a pensar por si mesmo.

Os MUNDOS ESQUECIDOS - WILLIAM CONTRAPONTO

 




Os Mundos Esquecidos

William Contraponto 


Talvez já fomos mais do que lembrança, 

E o tempo ocultou nossa passagem; 

Restou da antiga e vasta confiança 

Somente o mito, herança da viagem. 


Se o fogo um dia consumiu cidades,

E o mar levou palácios para o chão, 

Ficaram só fragmentos e verdades 

Guardadas na discreta tradição. 


Quem sabe um templo fosse uma oficina,

Ou um saber tornado devoção;

A história, quando o esquecimento inclina, 

Reveste a perda com imaginação.


Não digo que essa hipótese é verdade, 

Nem quero sugerí-la como religião;

A dúvida preserva a liberdade

De investigar sem qualquer imposição. 


Talvez também sejamos só passagem, 

Um breve instante à beira da erosão; 

O orgulho não resiste à ventania,

Nem vence para sempre a destruição.


Se um novo amanhecer surgir depois,

De outro silêncio feito de poeira, 

Que reste a velha pergunta entre nós:

Quantos mundos perdeu a humanidade inteira? 


Sobre Maumau- William Contraponto

 Sobre Maumau

Eu casei com o maumau. E depois de 10 anos nos separamos. Em três meses ele deixou o outro.  E voltamos a nos falar como amigos. Eu nunca deixei de amá-lo.  Logo, por amizade, ele voltou a morar na minha casa. Nunca voltamos a ser casados, namorados ou ficantes. Era amizade. Pura e sincera... 


Maumau ficou muito  doente. Câncer de fígado,  nódulo  no pulmão e metástase nos ossos. Minha vida desabou. Eu e ele mantivemos durante esse tempo uma relação  que  não era casamento,  nem mesmo de ato sexual. Mas nos mantivemos distantes de outros pares.

 Abdicamos do ato sexual com outros também.  Se não fosse entre nós  também não seria com outros. Tínhamos  medo de nos machucar. Meu pênis,  minha bexiga... Numa tentativa sangrei, então, fissemos esse pacto. E sei que ele cumpriu.  E eu idem. Agora, nossa ligação  não é  só de corpos é  muito além. E toda vez que  penso na possibilidade de estar sem ele eu também  me vejo morto. Conforme nossos algozes ao longo da nossa relação gostariam de nos  ver.

Se NÃO EU, QUEM? - WILLIAM CONTRAPONTO

 SE NÃO EU, QUEM?

Dizem que sou intelectualmente incapaz. Curioso. Se é assim, por que dedicam tanto tempo ao que escrevo? Por que tentam desqualificar o autor em vez de enfrentar as ideias?

Se eu não sou capaz de responder intelectualmente pelo que expresso, quem será?

Nao escondo minhas palavras atrás de gurus, partidos, religiões ou títulos acadêmicos. Tudo o que publico passa pelo meu próprio julgamento. Posso estar certo ou errado, mas cada texto é fruto da minha reflexão. E, quando erro, a responsabilidade é exclusivamente minha.

Não peço que concordem comigo. Peço apenas o mínimo de honestidade intelectual: respondam aos argumentos, não às caricaturas que criam sobre mim.

Há quem ache mais fácil chamar alguém de incapaz do que explicar por que discorda. É um atalho antigo. O insulto exige pouco; o debate exige estudo, paciência e coragem.

Continuarei escrevendo. Continuarei revendo minhas convicções quando houver razões para isso. Continuarei aceitando críticas fundamentadas, porque elas fazem parte do pensamento livre. Mas não aceitarei que tentem reduzir uma vida inteira de leitura, reflexão e escrita a um rótulo conveniente.

No fim das contas, não são os adjetivos que me definem. São as ideias que sou capaz de sustentar, revisar e desenvolver. E, enquanto eu puder responder por aquilo que escrevo, não precisarei que ninguém pense por mim.



Quando Minha Voz Não Puder Mais Falar - WILLIAM CONTRAPONTO (WILLIAM GOGOLENKO RISTHER)



Quando Minha Voz Não Puder Mais Falar

William Contraponto (William Gogolenko Risther)


Ao longo da minha vida, procurei construir minhas convicções por meio da reflexão, da dúvida e do conhecimento. Não encontrei nas crenças religiosas o fundamento para compreender a existência ou orientar minhas escolhas. Foi só pensando por conta própria que defini meus valores, minhas críticas e minha forma de estar no mundo. Por isso, considero importante deixar registrada uma vontade que expressa aquilo em que  acredito.

Se um dia o pensar me fugir na névoa dos dias e minha consciência já não puder responder por mim, peço que ninguém busque explicações ou tratamentos baseados em crenças religiosas. Não desejo que rezas, rituais ou interpretações espirituais ocupem o lugar das decisões que tomei enquanto estava plenamente consciente. Quero que minha trajetória intelectual e filosófica seja respeitada até o fim, da mesma maneira que respeito aqueles que escolhem viver guiados pela fé.

Peço que me amparem com a ciência, com o conhecimento e com o cuidado humano. Confio no trabalho dos profissionais da saúde, na ética, na pesquisa e no compromisso de aliviar o sofrimento por meio das melhores evidências disponíveis. Também espero que o afeto daqueles que estiverem ao meu lado seja suficiente para oferecer conforto, sem a necessidade de recorrer a crenças que deixaram  de fazer parte da minha maneira de compreender a realidade. E deixaram por completo. De forma ética e pela compreensão de que inexistente forças espirituais. 

Não escrevo estas palavras por rejeição às pessoas religiosas, mas por fidelidade àquilo que sou. Sempre defendi que cada indivíduo deve ser livre para acreditar ou para não acreditar. Da mesma forma que nunca desejei impor minhas convicções a ninguém, peço que as convicções de outras pessoas não sejam impostas a mim quando eu já não puder expressar minha própria vontade.

Se minha consciência vacilar e minha voz se calar, que permaneça viva a decisão que tomei enquanto ainda podia pensar com clareza. Que minha dignidade seja preservada, que minha autonomia seja respeitada e que minha história não seja reescrita pela ausência da minha lucidez. Se algo deve permanecer de mim, que seja o compromisso que sempre assumi com a liberdade de pensamento e com o direito de viver — e de ser cuidado — em coerência com aquilo que escolhi acreditar.




....





Extra:


A conta chega. Não porque exista um tribunal invisível ou um castigo sobrenatural, mas porque nenhuma ação deixa de produzir consequências. O mal que fizeste hoje pedirá explicações ou exigirá reparação amanhã. Talvez não diante de mim, talvez nem diante de quem prejudicaste, mas diante da realidade que tu mesmo ajudaste a criar. Há escolhas que voltam como perguntas incômodas e outras que retornam como a necessidade de agir para reparar o que foi quebrado. Esse é o único ajuste de contas em que acredito: o das consequências inevitáveis dos nossos próprios atos.


William Contraponto