Alexandria - William Contraponto

 Alexandria

William Contraponto 


Havia uma cidade voltada para o mar,

onde duas vidas cruzaram sem aviso,

e uma delas aprendeu, ao caminhar,

que certos encontros mudam o juízo.


As ruas guardavam línguas diferentes,

janelas abertas para outro lugar,

e nós éramos dois desconhecidos presentes

num mundo que decidiu nos aproximar.


Não fizemos promessas para o futuro,

nem procuramos respostas para o fim,

deixamos o instante seguir seu curso,

como a maré que encontra outro jardim.


O amor não pede permanência,

nem precisa de um nome para existir,

basta uma breve coincidência

para uma vida inteira se modificar.


Quando a manhã devolveu cada estrada,

ficou no horizonte alguma coisa a brilhar:

não era certeza, nem despedida marcada,

era a vontade de um dia retornar.


O PAÍS QUE AINDA NÃO SOMOS - WILLIAM CONTRAPONTO




O AMANHÃ QUE NÃO ESTÁ PRONTO

WILLIAM CONTRAPONTO 


Não basta levantar cidades ao chão,

se há vidas sem portas para atravessar,

não basta prometer alguma transformação,

se o povo continua sem lugar.


Um país não começa na bandeira,

nem termina no discurso oficial,

começa quando a vida verdadeira

deixa de ser tratada como detalhe banal.


Que a escola ensine a pensar sem tutela,

que a ciência não conheça um patrão,

que o jovem possa escolher sua janela

sem depender do acaso ou da posição.


Que a casa seja mais que quatro paredes,

que a saúde não dependa da sorte,

que ninguém tenha de carregar suas redes

como quem procura sozinho o próprio norte.


Que os trilhos atravessem as distâncias,

levando gente, trabalho e direção,

que a indústria transforme nossas esperanças

em conhecimento, emprego e produção.


Que a terra produza sem ferir a floresta,

que o campo tenha futuro e dignidade,

que o progresso não cobre uma dívida desonesta

daqueles que sustentam a sociedade.


E se houver riqueza escondida no chão,

que ela não termine apenas em dinheiro:

que vire escola, pesquisa e profissão,

que deixe conhecimento no país inteiro.


Não quero uma pátria feita de unanimidade,

onde discordar seja considerado traição;

quero uma democracia com liberdade

para a pergunta, a crítica e a contestação.


Porque ouvir não significa concordar,

e vencer não significa ter sempre razão;

às vezes é preciso perder para escutar

aquilo que faltou à nossa decisão.


Que o governo saiba também se questionar,

que o poder não se confunda com verdade,

que o povo possa entrar, falar e participar

sem pedir licença à autoridade.


Se o orçamento nasce da população,

que volte à população em forma de ação;

não quero promessa vestida de eleição,

quero palavra transformada em realização.


Talvez nenhum projeto alcance a perfeição,

talvez todo caminho carregue algum erro;

mas um país que aceita a correção

já começa a vencer o próprio medo.


Não somos o futuro que alguém desenhou,

nem o passado que insiste em permanecer;

somos aquilo que ainda não se completou,

somos a pergunta que escolheu viver.


Amanhã não pertence ao poder,

nem nasce pronto na mão de alguém;

é escolha de quem decide fazer

do próprio caminho, um caminho também.




Os MUNDOS ESQUECIDOS - WILLIAM CONTRAPONTO

 




Os Mundos Esquecidos

William Contraponto 


Talvez já fomos mais do que lembrança, 

E o tempo ocultou nossa passagem; 

Restou da antiga e vasta confiança 

Somente o mito, herança da viagem. 


Se o fogo um dia consumiu cidades,

E o mar levou palácios para o chão, 

Ficaram só fragmentos e verdades 

Guardadas na discreta tradição. 


Quem sabe um templo fosse uma oficina,

Ou um saber tornado devoção;

A história, quando o esquecimento inclina, 

Reveste a perda com imaginação.


Não digo que essa hipótese é verdade, 

Nem quero sugerí-la como religião;

A dúvida preserva a liberdade

De investigar sem qualquer imposição. 


Talvez também sejamos só passagem, 

Um breve instante à beira da erosão; 

O orgulho não resiste à ventania,

Nem vence para sempre a destruição.


Se um novo amanhecer surgir depois,

De outro silêncio feito de poeira, 

Que reste a velha pergunta entre nós:

Quantos mundos perdeu a humanidade inteira? 


Sobre Maumau- William Contraponto

 Sobre Maumau

Eu casei com o maumau. E depois de 10 anos nos separamos. Em três meses ele deixou o outro.  E voltamos a nos falar como amigos. Eu nunca deixei de amá-lo.  Logo, por amizade, ele voltou a morar na minha casa. Nunca voltamos a ser casados, namorados ou ficantes. Era amizade. Pura e sincera... 


Maumau ficou muito  doente. Câncer de fígado,  nódulo  no pulmão e metástase nos ossos. Minha vida desabou. Eu e ele mantivemos durante esse tempo uma relação  que  não era casamento,  nem mesmo de ato sexual. Mas nos mantivemos distantes de outros pares.

 Abdicamos do ato sexual com outros também.  Se não fosse entre nós  também não seria com outros. Tínhamos  medo de nos machucar. Meu pênis,  minha bexiga... Numa tentativa sangrei, então, fissemos esse pacto. E sei que ele cumpriu.  E eu idem. Agora, nossa ligação  não é  só de corpos é  muito além. E toda vez que  penso na possibilidade de estar sem ele eu também  me vejo morto. Conforme nossos algozes ao longo da nossa relação gostariam de nos  ver.

Se NÃO EU, QUEM? - WILLIAM CONTRAPONTO

 SE NÃO EU, QUEM?

Dizem que sou intelectualmente incapaz. Curioso. Se é assim, por que dedicam tanto tempo ao que escrevo? Por que tentam desqualificar o autor em vez de enfrentar as ideias?

Se eu não sou capaz de responder intelectualmente pelo que expresso, quem será?

Nao escondo minhas palavras atrás de gurus, partidos, religiões ou títulos acadêmicos. Tudo o que publico passa pelo meu próprio julgamento. Posso estar certo ou errado, mas cada texto é fruto da minha reflexão. E, quando erro, a responsabilidade é exclusivamente minha.

Não peço que concordem comigo. Peço apenas o mínimo de honestidade intelectual: respondam aos argumentos, não às caricaturas que criam sobre mim.

Há quem ache mais fácil chamar alguém de incapaz do que explicar por que discorda. É um atalho antigo. O insulto exige pouco; o debate exige estudo, paciência e coragem.

Continuarei escrevendo. Continuarei revendo minhas convicções quando houver razões para isso. Continuarei aceitando críticas fundamentadas, porque elas fazem parte do pensamento livre. Mas não aceitarei que tentem reduzir uma vida inteira de leitura, reflexão e escrita a um rótulo conveniente.

No fim das contas, não são os adjetivos que me definem. São as ideias que sou capaz de sustentar, revisar e desenvolver. E, enquanto eu puder responder por aquilo que escrevo, não precisarei que ninguém pense por mim.