PARÁGRAFO 175
Dois homens dividiam a mesma espera,
duas vidas guardadas pela discrição,
enquanto uma norma fria e severa
tentava transformar afeto em infração.
Havia um quarto, uma janela, uma cidade,
e um mundo que não lhes permitia escolher,
mas entre os dois permanecia a vontade
de continuar próximos, apesar do poder.
Um número passou a nomear suas vidas,
um papel decidiu aquilo que deveriam ser,
e um triângulo rosa sobre suas roupas
passou a dizer aquilo que não podiam esconder.
Não havia culpa naquele sentimento,
nem havia ameaça naquilo que os unia,
mas o poder transformou um simples vínculo
em motivo para lhes negar a própria alegria.
Depois vieram os portões e a distância,
um lugar onde o medo aprendeu a mandar,
e o tempo perdeu sua importância
diante de um destino impossível de mudar.
Ficaram para trás os dias partilhados,
as conversas, os livros, a antiga afeição,
e dois nomes, quase apagados,
permaneceram guardados pela recordação.
Hoje resta apenas aquela sentença,
fria como um número perdido no papel,
e um triângulo rosa na memória
como testemunho de um tempo cruel.
Porque nenhuma lei possui o direito
de determinar aquilo que alguém pode sentir,
e nenhum poder consegue por decreto
decidir quem merece amar ou existir.
