A Perda Sagrada - William Contraponto



A Perda Sagrada

William Contraponto


À margem do Nilo, onde o rio silencia,

o amor, enfim, encontra seu fim.

Nos olhos de Antínoo, Adriano via

não só o belo, mas o divino a brilhar assim.


Não era o poder da coroa que cativava,

mas a entrega de um amor profundo,

onde palavras se tornam o que se guarda,

em gestos, e nos silêncios do mundo.


Antínoo, mais que carne, era chama acesa,

um amor que, no peito, Adriano cultivava.

Era beleza que, em sua natureza,

não se apagava, mas na dor se renovava.


A perda, enfim, se fez sagrada,

como o fogo que nunca se apaga no altar.

E o imperador, com alma enlutada,

fez da dor sua reverência ao amar.


Ergueu-lhe templos, moldou sua imagem,

mas a pedra, sem vida, não compreende o toque.

Nenhuma forma retém, em sua viagem,

o amor que persiste, mais do que qualquer rochedo ou bloqueio.


Antínoo, tu não és só o ausente,

mas o amor que transcende a morte e o mar.

Em cada memória, és eternamente presente,

a perda sagrada que nunca deixará de brilhar.

SINAL DOS SATURNINOS - WILLIAM CONTRAPONTO

 



Sinal dos Saturninos

William Contraponto


Os olhares saturninos acoam

Transmitindo uma sinalização,

Feita de sombra e de idioma

Que escapa à compreensão.


São faróis de uma ausência contida,

São espelhos do não-lugar,

Onde a verdade adormecida

Insiste em não se calar.


A verdade não brada no vento,

Nem desce em clarão triunfal,

Ela dança num tempo lento,

Em silêncio essencial.


Não gritam, não se exaltam,

Mas vibram no contrassom 

Enquanto os olhos se faltam,

A alma escuta o tom.


E no passo que se atrasa,

Algo novo se faz ver:

Não é o saber que embasa,

Mas o ato de aprender.


A verdade não brada no vento,

Nem desce em clarão triunfal,

Ela dança num tempo lento,

Em silêncio essencial.

TRAMAS DO LIMITE - WILLIAM CONTRAPONTO

 



Tramas do Limite

William Contraponto


Há tramas que nos cercam, sim —

umas protegem, outras ferem.

Como a cerca do jardim,

que guarda... ou impede que esperem.


Vivemos contando as grades,

no molde exato que se herda.

Chamamos lar às metades,

e medo ao passo que enverga.


Será abrigo ou cela fria?

Depende do que se sente.

É prisão ou poesia?

Depende do olhar da gente.


Fios ocultos nos conduzem,

costuras dentro da mente.

Uns com amor nos infundem,

outros controlam silente.


Na alma, regras costuradas,

laços do tempo e do chão.

Algumas são bem tramadas,

outras viram restrição.


Será abrigo ou cela fria?

Depende do que se sente.

É prisão ou poesia?

Depende do olhar da gente.




NA FRONTEIRA DE NÓS DOIS - WILLIAM CONTRAPONTO




Na Fronteira de Nós Dois

William Contraponto


Na esquina estreita do mundo,

onde o olhar pesa mais que a pedra,

nós dois existimos à revelia,

de um céu que nunca nos celebra.


Gritam nomes, constroem muros,

com dogmas, cruzes, fardos e leis,

mas vivemos, mesmo sem permissão,

num agora que ninguém desfez.


Disseram que amar era errado,

que Deus não cabe no nosso abraço...

Mas se o inferno é o outro,

não sou eu quem lança o laço.


Vivemos, apesar do medo,

no absurdo que a fé construiu,

somos escolha em meio ao silêncio,

somos desejo que nunca fugiu.

E mesmo que tudo negue o que somos,

seguimos, porque amar é ser.

Na fronteira de nós dois,

há um mundo que não quiseram ver.


Carregamos angústias herdadas,

verdades partidas em becos calados,

mas cada toque teu me ancora

no sentido que não vem dos fados.


Saltamos sem chão sob os dias,

com a fé de quem teme e insiste,

e encontramos abrigo nos gestos

que provam que o amor persiste.


Disseram que a alma tem forma,

e que a nossa é ausência e engano...

Mas não há essência que nos prenda

quando o afeto é soberano.


Vivemos, apesar do medo,

no absurdo que a fé construiu,

somos escolha em meio ao silêncio,

somos desejo que nunca fugiu.

E mesmo que tudo negue o que somos,

seguimos, porque amar é ser.

Na fronteira de nós dois,

há um mundo que não quiseram ver.


Não há condenação mais cruel

que viver sob o olhar alheio.

Mas o amor é nossa resposta

ao vazio feito de receio.


Vivemos, apesar do medo,

no absurdo que a fé construiu,

somos coragem em carne e beijo,

somos liberdade que resistiu.

E mesmo que tudo negue o que somos,

seguimos, porque amar é ser.

Na fronteira de nós dois,

há um mundo inteiro por renascer.








VERSÃO OFICIAL- WILLIAM CONTRAPONTO

 



Versão Oficial

William Contraponto


Escreve o rei com tinta de guerra,  

na pele alheia, sua versão.  

Quem tombou antes, já não encerra  

nenhum direito à narração.  


Ergue-se o herói sobre os escombros,  

de quem lutava por abrigo.  

Os nomes somem nesses escombros,  

só resta o canto do inimigo.  


A glória é escrita a ferro e fogo,  

com pena feita de poder.  

Apaga-se o que não foi jogo,  

o que sangrou sem merecer.  


Mas sob a página encadernada,  

há vozes presas no papel.  

A história é sempre maquiada  

pra parecer toque do céu.