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C.R.: A PALAVRA COMO INSTRUMENTO DE DESGASTE

 


Considerações Reflexivas:

A Palavra Como Instrumento de Desgaste 


Há discursos que não nascem da dúvida, mas da necessidade de ferir. Neles, o fato não importa: é apenas um corpo disponível para a agressão. A versão muda, não por revisão honesta, mas porque o ataque exige novas formas; não há contradição real, há insistência. Fala-se hoje de um modo, amanhã de outro, desde que o outro permaneça menor, sob suspeita, corroído. A palavra, que poderia ser ato de lucidez, é rebaixada a instrumento de desgaste moral. Nesse movimento, a coerência deixa de ser valor porque a verdade já foi abandonada de saída; o que resta é um exercício pobre de poder, onde quem acusa revela menos sobre o acusado e mais sobre a própria incapacidade de sustentar sentido sem destruir alguém no caminho.


E-book: Regimes do Real – três estados do existir. De William Contraponto

 E-book: Regimes do Real – três estados do existir. De William Contraponto 


Três poemas que investigam o real como imposição: pela exposição excessiva, pela suspensão do escuro e pela normalização da violência. O livro recusa consolo e redenção, afirmando a consciência crítica e a decisão como modos de atravessar o mundo sem ilusão. 


Clique na imagem abaixo para fazer o download 



Para Não Dizer quem Não Falo de Ontem - William Contraponto



Para Não Dizer quem Não Falo de Ontem

William Contraponto


O ontem pesa, mas não governa 

Carrega marcas que não desfaço 

A memória insiste, mas não ordena 

Nem dita o rumo do meu passo 


Não peço perdão ao que já fui 

Nem faço do erro uma prisão 

O que passou em mim persiste e flui 

Sem me exigir reparação 


O ontem ensina pelo atrito 

Nunca pelo conforto fácil 

Seu verbo é seco, quase aflito 

Sem promessa, sem prefácio 


Não moro onde o tempo fechou 

A casa ali virou sinal 

Reconheço o chão que me formou 

Sem torná-lo final 


Falo do ontem com lucidez 

Sem culto, medo ou redenção 

Ele explica quem eu fui uma vez 

Mas não dá a direção

O Enigma do Primeiro Passo - William Contraponto



O Enigma do Primeiro Passo 

William Contraponto 


O caminho desperta no primeiro passo, 

abrindo o mundo sem se anunciar. 

Do ato nasce um tênue traço, 

que à própria essência decide chamar. 


Nenhuma voz secreta indica direção; 

o ritmo surge ao se escutar. 

Entre o peso do tempo e a indecisão, 

a senda encontra modo de avançar. 


Sem verbo fixo ou guia certeiro, 

a trilha aprende a se configurar. 

Há sempre vida no início ligeiro, 

sutil convite para continuar. 


Quando o silêncio cresce por inteiro, 

um fundo sentido tenta despontar. 

No intervalo se refaz o roteiro, 

mínima música a respirar. 


E se algo fica, é o inicial traço, 

o breve lume a resistir. 

Sutil lembrança de que há espaço 

para o instante enfim surgir. 





Entre o Sóbrio e o Ébrio - William Contraponto

 



Entre o Sóbrio e o Ébrio 

William Contraponto 


Entre o sóbrio e o ébrio

haverá uma conexão;

entre certeza e mistério

haverá revelação.


O que a consciência vigia,

a dúvida põe em tensão:

somos o elo que falha

na busca por direção.


A fronteira não é ameaça,

é estado, é condição;

quem a encara de frente

aprende a nomear o não.


Entre o sóbrio e o ébrio

haverá uma conexão;

entre certeza e mistério

haverá revelação.


Nenhum mapa nos garante,

nem promessa em previsão;

o sentido não é dado,

germina na interrogação.


Entre o delírio e a lógica

segue a mesma pulsação:

a lucidez é ferida,

e viver é insurreição.


Entre o sóbrio e o ébrio

haverá uma conexão;

entre certeza e mistério

haverá compreensão.







Na Esteira das Horas - William Contraponto

 



Na Esteira das Horas

William Contraponto


Corremos sem perceber,

no giro que nunca demora;

a vida tenta nos deter,

mas seguimos na esteira das horas.


O tempo caminha sem sapatos,

não pede licença ao chão que pisa;

passa leve como quem destrói,

e pesa fundo como quem avisa.


As horas nos puxam pelo fio

que tecemos sem perceber;

às vezes guia, às vezes trilho,

às vezes só nos faz correr.


Corremos sem perceber,

no giro que nunca demora;

a vida tenta nos deter,

mas seguimos na esteira das horas.


O relógio é cúmplice e carrasco,

marca destinos e omissões;

mas cada ponte entre dois instantes

se constrói com decisões.


Há quem tente frear o passo

com calendários e ilusões;

mas o futuro não negocia,

ele empurra as estações.


Corremos sem perceber,

no giro que nunca demora;

a vida tenta nos deter,

mas seguimos na esteira das horas.


E quando o dia já se cansa

de colecionar nossas demoras,

entendemos que somos feitos

de breves e frágeis agoras.


Corremos sem perceber,

até que a verdade aflora:

não escolhemos começar,

mas escolhemos como o tempo nos devora.